Newsletter Nº 48
Maio de 2006

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Entrevista com o Engº António José de Oliveira Braz

“A Saint-Gobain Glass sempre fez uma boa divulgação
e pedagogia dos seus produtos”


Engº A. J. de Oliveira Braz

“O LNEC É INDUBITAVELMENTE UMA INSTITUIÇÃO CIENTÍFICA COM ELEVADO PRESTÍGIO NO MUNDO”

“A SEU MODO E NO SEU TEMPO, O MARQUÊS DE POMBAL E O ENGº ARANTES E OLIVEIRA FORAM DETERMINANTES NA REDEFINIÇÃO DA URBE”

“PREOCUPAMO-NOS SERIAMENTE COM A POSSÍVEL EXTINÇÃO DA HUMANIDADE, A LONGO PRAZO, DEVIDO AO AQUECIMENTO GLOBAL DO PLANETA AZUL”

“MAS, COM UMA INCRÍVEL TRANQUILIDADE, ACEITAMOS A POSSIBILIDADE DE, A CURTO PRAZO, MORRER INTOXICADOS POR CO2 OU INFECTADOS PELA LEGIONELLA”

Estas são algumas das afirmações do Engº A. J. de Oliveira Braz, nosso entrevistado desta edição de Notícias SGG. Vale a pena ler na íntegra a entrevista que transcrevemos a seguir:

Engº A. J. de Oliveira Braz

Oliveira Braz é um dos indeléveis nomes responsáveis pelo inquestionável sucesso e ímpar reputação do LNEC, o nosso Laboratório Nacional de Engenharia Civil, uma instituição portuguesa de ciência e tecnologia, que tanto nos honra e prestigia internacionalmente.

Na verdade, exceptuando os primeiros doze anos da sua carreira académica e científica, em que exerceu simultaneamente docência no Instituto Superior Técnico, Oliveira Braz nunca conheceu outro apelo profissional que não fosse o da sua actividade no LNEC. E, entretanto, passaram-se 35 anos de abnegado trabalho e dedicação.

Hoje, já com os créditos de um percurso profissional pleno de realização, e com a tranquilidade, orgulho e simplicidade próprios de quem reclama o saber da experiência vivida, Oliveira Braz é Investigador-Coordenador e Chefe do Núcleo de Normalização e Regulamentação do LNEC.

É pois com exteriorizada satisfação que Oliveira Braz fala de toda a complexidade e delicadeza sobre o que são as actividades de normalização ligadas à elaboração dos Eurocódigos, naturalmente relacionados com a missão do LNEC. Essas actividades desenvolvem-se em duas áreas distintas, mas complementares. Uma delas, a da participação do LNEC nos fóruns do CEN em que são debatidos e definidos os conteúdos desses mesmos Eurocódigos. Outra, a da sua adaptação para aplicação no nosso País.

Uma área em que Oliveira Braz investiu muito do seu tempo de estudo e investigação foi o do “Comportamento da chapa de vidro sob a acção da insolação”, isto na altura em que estavam a ser lançados no mercado os vidros coloridos na massa, denominados absorventes de calor, que apresentam sérios problemas de rotura termo-mecânica em aplicação e utilização corrente, isto é, idêntica à do vidro comum. Efectivamente, a sua Tese para Especialista do LNEC, que defendeu em Fevereiro de 1983 em prova pública de acesso à Carreira de Investigação Científica, versou esta temática; a parte experimental teve um decisivo apoio da SGG, então COVINA, com a gentil oferta dos provetes para ensaio.

Outra área de grande investimento pessoal incidiu sobre o comportamento de componentes de edifícios, especialmente da caixilharia exterior. Modéstia à parte, considera-se pioneiro no planeamento e realização de estudos de garantia da qualidade do processo de instalação da caixilharia exterior em obra, tendo alguns destes estudos incidido sobre empreendimentos imobiliários em Lisboa considerados de referência. O Programa de Investigação, que defendeu em Janeiro de 1995 em prova pública de acesso à categoria de investigador-coordenador, permanece como documento de referência, quanto à concepção e concretização de estudos de garantia da qualidade ao nível dos processos de construção.

Finalmente, na sequência de uma pós-graduação em 1985 em Engenharia da Qualidade pela Universidade Nova de Lisboa, foi pioneiro e tem sido um grande dinamizador, ao longo de duas décadas, da introdução no LNEC e na Indústria da Construção dos conceitos e metodologias da qualidade, actualmente amplamente reconhecidos como factores críticos de sucesso para o incremento da competitividade da economia nacional. Atestam-no diversas “Memórias do LNEC”, que tem vindo a publicar, sobre a qualidade dos serviços e dos bens da indústria da construção.

NOTÍCIAS Saint-Gobain Glass: Na sua opinião, qual é a actual identidade do LNEC?

ENGº Oliveira Braz: O LNEC, que sempre primou pela diversidade, é uma instituição nacional de investigação científica no âmbito da Engenharia Civil reunindo valências bastante diversificadas, pois tem como colaboradores engenheiros civis, mecânicos, electrotécnicos, geólogos, químicos, enfim… arquitectos, sociólogos especialistas em ecologia social… ou seja, temos as áreas do conhecimento científico e técnico, não só da Engenharia Civil, mas também das outras ciências que para ela contribuem.

Isto porque, e cada vez mais, a Engenharia Civil deixou de ser um domínio científico e técnico restringido ao acto de conceber e construir as edificações. Repare por exemplo, no contexto particular de uma “Urbanização”. Só aí, levantam-se questões diversas que vão desde as interacções sociais, o comportamento humano, os aspectos de conforto, de bem-estar e de saúde… e muitas outras, até aos conhecimentos técnicos de arquitectura e engenharia civil.

O LNEC tem toda esta multiplicidade de valências, para que possa sempre dar uma resposta completa, coerente e sustentada às solicitações que lhe são dirigidas, directa ou indirectamente ligadas à Engenharia Civil.

SGG: E a nível internacional?

OB: Não tenho qualquer dúvida de que, em termos de notoriedade e prestígio, o LNEC é também uma referência a nível internacional. Creio mesmo que no mundo não existe uma instituição que se lhe assemelhe, já que a identidade do LNEC é fortemente diferenciadora e muito singular.

Repare que nós temos unidades departamentais especializadas em Hidráulica, Barragens, Edifícios, Estruturas, Materiais de construção, Transportes e vias de comunicação, Ecologia social, Ambiente, Qualidade na construção… é muito difícil, eu pelo menos não conheço, mesmo a nível internacional, existir outro laboratório tão completo como o do LNEC. É ímpar, indiscutivelmente! É por isso, pela sua história, pela inquestionável competência, pela forma global com que aborda os problemas, que é muito respeitado internacionalmente.

SGG: O LNEC é indubitavelmente uma instituição que se antecipa ao futuro. Será que me pode falar do sentido de visão que esteve na génese da criação deste Laboratório?

OB: Pessoalmente, não conheci o Engº Arantes e Oliveira, um dos fundadores do LNEC.

Contudo, para mim, há um texto que revela bem o sentido de antecipação do futuro do Engº Arantes e Oliveira. Concretamente, refiro-me ao “Regulamento Geral de Edificações Urbanas”, publicado em 1951, e elaborado, segundo julgo saber, sob coordenação do Engº Arantes e Oliveira. Esse regulamento uniformizou, a nível do território nacional, pela primeira vez, as exigências a que devem obedecer as edificações construídas em zonas urbanas.

Ainda hoje, passados 55 anos, e é aí que reconheço a grande visão estratégica do Engº Arantes e Oliveira, o regulamento encontra-se em vigor e com significativa actualidade, não obstante, claro está, carecer de ajustamentos em algumas partes, onde a evolução científica e técnica o desajustou.

Seria grande injustiça esquecer o outro fundador do LNEC, o Prof. Manuel Rocha, pessoa de grande humanidade e elevado mérito científico reconhecido mundialmente, que o destino me permitiu ter a honra e o enorme prazer de conhecer pessoalmente. Com uma enorme visão estratégica sobre o futuro da Engenharia Civil, o Prof. Manuel Rocha dirigiu com notável mestria o LNEC durante as décadas 50 e 60 do século passado, criando-o e fazendo-o evoluir para a instituição científica de grande prestígio internacional em que se tornou.

SGG: Quer isto dizer que o urbanismo que existe de há 50 anos para cá, está em conformidade com esse regulamento. Fantástico, não acha?

SGG: …se por acaso o Marquês de Pombal e o Engº Arantes e Oliveira se encontrassem, o que diriam um ao outro?

OB: Creio que em termos de perspectivar o futuro eram muito semelhantes.

O primeiro redefiniu a Urbe de Lisboa, após o grande terramoto… o segundo redefiniu a Urbe em termos nacionais, com o regulamento mencionado… ou seja, a seu modo e no seu tempo, ambos foram determinantes na redefinição da Urbe!

Por isso julgo que o diálogo entre ambos seria de plena concordância de opiniões, pois tinham uma visão estratégica sobre a Urbe muito avançada para a época em que viveram em Portugal!

SGG: Há pouco quando falava da multidisciplinaridade do LNEC, exemplificou a Ecologia Social. Pode-nos dar um exemplo concreto de aplicação deste saber?

OB: Sim, claro. Repare que o fim último da cadeia de valor em que o LNEC se insere, é o “Homem e o seu bem-estar, no sentido lato”.

Pois bem, a importância da Ecologia Social verifica-se, por exemplo, nos planos municipais de realojamento. Os estudos de Ecologia Social neste domínio destinam-se a identificar e a preservar parentescos, amizades, relações de conveniência… tudo isto para que não se descaracterize o tecido social existente e para que o realojamento dos efectivos de uma zona degradada se faça mantendo a mesma rede de interacção social e assegurando a não ocorrência de roturas de relações afectivas nas famílias e entre famílias.

Outro exemplo, que evidencia a importância da Ecologia Social, tem suporte nos estudos que o LNEC tem realizado no domínio da “Análise de Riscos com forte componente Social”. Concretamente o estudo sobre uma barragem no Algarve, em que foi avaliado, em situação de catástrofe, o impacto da rotura da barragem na população existente na zona de inundação, para permitir a criação atempada de dispositivos de alerta e procedimentos de evacuação da população em perigo. Também os incêndios florestais constituem outro domínio de intervenção dos especialistas da Ecologia Social na “Análise de Riscos com forte componente Social”.

Além disso, esta vertente social não se esgota com a Ecologia Social. Cada vez mais há necessidade de estudar o impacte social resultante do funcionamento dos empreendimentos que são construídos.

Quando digo funcionamento, por exemplo no caso dos edifícios, podem estar implícitas questões ligadas à saúde, como é o caso da qualidade do ar interior. No nosso País, este problema é muito sério. Quando se fala de questões ambientais, associa-se normalmente a problemas do ambiente terrestre. Quase ninguém se lembra da qualidade do ar no interior dos edifícios. Note que 80% ou mais do nosso tempo de vida é gasto no interior de edifícios: habitação, restaurantes, trabalho, museus, cinemas, centros comerciais,… eu sei lá. Assim, descurar a qualidade do ar interior dos edifícios, por falta de ventilação ou por ventilação deficiente, é gravíssimo, em termos de saúde pública! Concretamente, refiro um caso relativamente recente em que num hospital da Área Metropolitana de Lisboa foi detectado um acréscimo atípico de gripes e constipações em residentes de uma mesma zona urbana. Análises laboratoriais revelaram valores de CO2 elevados no sangue desses doentes e medições efectuadas nas respectivas residências detectaram a existência de concentrações de CO2 no ar interior muito superiores aos valores considerados razoáveis. Infelizmente, a intoxicação sanguínea por CO2 revela sintomas semelhantes aos de uma constipação ou de uma gripe, favorecendo uma desvalorização da doença, o que é determinante para que não sejam normalmente apuradas as suas causas.

A renovação do ar no interior das habitações é pois crucial para a saúde das pessoas. Se a isto se juntar o grave problema de contaminação do ar interior dos edifícios devido à péssima ou mesmo inexistente manutenção periódica, praticada no nosso País, dos equipamentos dos respectivos sistemas de climatização, estão criadas as condições que favorecem a propagação de doenças.

Não querendo desvalorizar a necessidade de assegurar uma elevada qualidade ambiental terrestre, como garantia de sobrevivência da humanidade, o que temos referido sobre a baixa qualidade do ambiente interior dos edifícios em Portugal constitui um problema de saúde pública que gradualmente se agravará, com nefastas consequências, se não for atempadamente solucionado. Preocupamo-nos seriamente com a possível extinção da humanidade, a longo prazo, devido ao aquecimento global do planeta azul, mas, com uma incrível tranquilidade, aceitamos a possibilidade de, a curto prazo, morrer intoxicados por CO2 ou infectados pela legionella. “Estranha forma de vida”… canta a fadista, espalhando por toda a parte.

SGG: Sei que caixilharias lhe é um tema muito próximo e querido, quanto mais não fosse pela pedagogia de boas práticas, que sempre tem vindo a fazer. Como vai hoje o estádio da arte, nesta matéria?

OB: Diria que poderíamos estar melhor. Claro que, ao nível tecnológico dos sistemas de caixilharia actualmente comercializados, a realidade tem vindo a melhorar. O problema está na transformação e aplicação em obra desses sistemas. Aí, ou seja ao nível dos instaladores, popularmente conhecidos como “caixilheiros”, as coisas permanecem menos evoluídas; efectivamente, a qualidade da execução e da montagem em obra dos caixilhos ainda é significativamente insuficiente, em média.
Muitas das patologias dos edifícios resultam de um deficiente desempenho da envolvente, que recebe da caixilharia exterior uma significativa contribuição: sendo esta mal executada e montada em obra, estão criadas as condições que favorecem as tão nocivas infiltrações de água da chuva para o interior dos edifícios.

SGG: E relativamente aos vidros, qual a sua opinião?

OB: Repare que aí a situação é bastante melhor. E porquê? O vidro é normalmente prescrito pelo gabinete de arquitectura e portanto para a sua escolha contribuem pessoas de qualificação académica e profissional bastante mais elevada. Por outro lado, a Saint-Gobain Glass sempre fez uma boa divulgação e pedagogia dos seus produtos junto dos prescritores e dos promotores imobiliários, o que é bom, claro.
Contudo, isso não se tem revelado suficiente para de todo evitar que os edifícios em Portugal continuem, em geral, a revelar desempenhos energéticos pouco ou nada optimizados, em termos económicos, sobretudo quanto à redução das elevadas necessidades energéticas de arrefecimento, em condições climáticas de Verão.

SGG: Sr. Engº Oliveira Braz, muito mais haveria para dizer, quer sobre o LNEC, quer sobre a sua rica e multifacetada experiência profissional, mas condicionantes de edição levam-nos a ficar por aqui. O nosso muito obrigado e até uma próxima oportunidade, seguramente.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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