Newsletter Nº 47
Abril de 2006

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Entrevista com o Arq. Pedro Nunes

“O vidro é o futuro”


     Arq. Pedro Nunes

“EXISTE AINDA UM GRANDE DESCONHECIMENTO SOBRE AS POTENCIALIDADES DO VIDRO E MUITO MAIS SOBRE O QUE ELE PODERÁ SIGNIFICAR NO FUTURO”

“O VIDRO, FOI O TEMA DA MINHA TESE DE ESPECIALIDADE”
“SOU CONSULTOR EM COMPORTAMENTOS E DESEMPENHO DE EDIFÍCIOS, PARTICULARMENTE NAS ÁREAS ENERGÉTICAS E AMBIENTAIS”

Estas são algumas das afirmações do Arquitecto Pedro Nunes, o nosso convidado desta edição Notícias–SGG e cuja entrevista transcrevemos a seguir:

Arqt. Pedro Nunes

De que melhor forma poderemos nós apresentar Pedro Nunes senão evocando extractos extraordinários do seu próprio discurso directo?! Ora vejam:

- Aos 9 anos já brincava com pequeninos estojos de física e química.

- Desmontava os cartuchos de caça do meu pai e fazia canhões de pólvora com chaves velhas e coisas assim.

- Quando fazia choques com os carrinhos de brincar, para parecer mais a sério, regava-os com a gasolina das ampolas de isqueiro que comprava nas drogarias, e incendiava-os. O meu pai ofereceu-me um extintor.

- Sempre quis ser físico e aos 17 anos fui para o curso na Faculdade de Ciências, mas lá, em 75/76, havia mais reuniões do que aulas!

- Mudei. A arquitectura também era naturalmente outra vocação. Era o meu meio.

- No fim do curso de arquitectura na ESBAL fui, durante dois anos (83/85), especializar-me em “Energy Studies” na AA, em Londres. O tema da minha tese foi o Vidro.

- Sou também um investigador por natureza. Alimento-me da inquietude permanente, do querer saber, do querer descobrir.

- Por isso, persigo sempre a resposta a uma pergunta: “O que é a Arquitectura?”

- Sou pelo rigor e pelo diálogo. Aspectos imprescindíveis na minha maneira de saber fazer e saber estar, na minha profissão e na vida.

- Trabalhei, entre outros, em alguns projectos de relevo nacional, como o da Urbanização da Expo´98, o do Centro Cultural de Belém e acompanhei, como convidado, a primeira versão do RCCTE.

- Rómulo de Carvalho e Sena da Silva são as minhas principais referências. Este último foi o meu segundo pai. O meu primeiro pai esteve na ESBAL Mas, por razões políticas, não fez arquitectura. A minha mãe é arquitecta.

- Tenho 49 anos.

- Gosto daquilo que faço.

- Aliás, não sei do que não gosto.

– Só sei que sei gostar e que, quando gosto, gosto com muita intensidade e dedico-me.

NOTÍCIAS Saint-Gobain Glass: Profissionalmente, como se posiciona no mundo da Arquitectura?

Arqt. Pedro Nunes: No essencial sou um… um “CONSULTOR ESPECIALIZADO EM COMPORTAMENTOS E DESEMPENHO TÉRMICO/ENERGÉTICO DE EDIFÍCIOS“. Concretizando melhor, diria que a minha consultoria é uma consultoria sistémica, pois implica e reclama uma multidisciplinaridade integrada, que abrange temáticas como, por exemplo, o conforto, a gestão de energia, que vai do Plano de Urbanização aos aspectos construtivos, parâmetros de qualidade, impactes, custos, prazos, entre outros.

Ou seja, é um modelo de consultoria que passa por tudo. Primeiro, pelo urbanismo, depois pela arquitectura, até que acaba na especificação das soluções construtivas, o desempenho energético e as suas consequências ambientais e por aí fora… Note, ao nível do desempenho energético, intervimos na definição das estratégias de gestão de recursos e emissões – situação climática, energias, materiais de construção – tanto na utilização do edifício, como na sua produção e, até, na sua destruição.

Claro está que também faço a arquitectura tradicional. Revejo-me nela com muita intensidade, pois é uma dimensão muito importante da minha realização e do meu crescimento profissional.

Dediquei-me também com muito empenho, em 2002/03, à fundação do Núcleo do Ambiente da Ordem dos Arquitectos. Este núcleo, de cuja coordenação ainda faço parte, focaliza a sua actividade no âmbito da Arquitectura Bioclimática e Sustentabilidade.

Como vê, pratico arquitectura a vários níveis, todos eles diferenciados entre si, é certo, mas, de alguma forma, complementares.

SGG: Curioso este seu posicionamento, tão singular, de consultoria especializada no mundo da arquitectura! Na prática, como é que as coisas se passam? Será que nos pode dar um exemplo?

Pn: Bom, você chega ao pé de mim com uma ideia, ou seja, um programa urbano, ou um projecto de um cliente, que tanto pode ser uma fábrica, como uma habitação, um hotel, ou outra suposta edificação qualquer.

Ora, aí, e em traços gerais, diria que, primeiramente, se estuda o “ Local” em todas as suas vertentes, desde a morfologia natural e construída, o solo, a água, o clima, o sol, as sombras, os ventos, “os cheiros”, o ruído, a cor, a paisagem, os materiais, as fontes de energia, as condicionantes legais, as tecnologias disponíveis, enfim, tudo aquilo que existe e com que temos de contar para tomar decisões, isto é, o que pode e deve fazer-se nesse dito local em termos de enquadramento, funcionalidades pretendidas… Em suma, faz-se um diagnóstico completo de necessidades e exigências, e um subsequente aconselhamento técnico e cientifico sobre todos os aspectos que permitam salvaguardar uma boa implementação do referido programa ou edifício que estiver em causa.

Uma vez concluída esta fase, o arquitecto coordenador do projecto poderá passar à fase de criação da identidade da edificação que se pretende construir.

Naturalmente que, assim, o arquitecto tem uma base de partida que lhe permite uma “Concepção” mais consistente e eficaz, uma vez que se evitam eventuais insuficiências que muitas vezes só são detectadas já na utilização das edificações e, muitas vezes, sem possibilidades de serem corrigidas.
Por outro lado, o arquitecto vê salvaguardados aspectos pertinentes que, por força da multidisciplinaridade e especialização, escapam, como é natural, ao universo dos seus conhecimentos técnicos e, muito em particular, nas vertentes energéticas e ambientais. Isto, claro está, não obstante ser ele, o arquitecto, o responsável mais imediato.

SGG: Quando se refere a essa multidisciplinaridade e tendo em conta que a arquitectura tem como fim último o “ Homem”, que disciplinas costuma utilizar nos seus projectos de consultoria e que, aparentemente, não tenham uma relação directa com a arquitectura?

PN: Olhe, sabe, as mentalidades às vezes demoram mais tempo a mudar do que demora a tecnologia. Por isso, e não raras vezes peço pareceres técnicos de sociólogos, economistas e até psicólogos do ambiente… e mais do que isso, vou às várias entidades e pergunto, por exemplo, na Direcção Geral de Energia, “ Quais poderão ser os incentivos para certos tipos de estratégias energéticas? ”. Ou então, vou falar, por exemplo, com a EDP, e tentar saber o que vai mudar no sector, isto concomitantemente com a actualização sobre as outras energias alternativas, renováveis ou não.

SGG: Os seus trabalhos são objecto de análise crítica. Essas críticas chegam ao seu conhecimento?

PN: Sim, sim, geralmente chegam e são muito úteis.

Sabe, eu procuro trabalhar de uma forma científica e acredito na ciência, supostamente!

Para além disso, eu acho que cada projecto é um diálogo. Para isso é preciso capacidade de comunicação. Por isso, tenho de trabalhar com quem tenha alguma identidade de atitude e linguagem.

Sou convicto, não sou fundamentalista. Mas acho que o rigor é uma coisa importante. Tenho uma grande liberdade de movimentos e não sou prisioneiro da minha visão.

SGG: Disse que o tema da sua tese foi o “ Vidro”. Como enquadra o vidro na arquitectura de hoje?

PN: Não tenho qualquer dúvida em dizer que o vidro é um material eleito na construção moderna. Por isso é que eu fiz a minha tese em Vidro.

A parte mais dinâmica e complexa dos edifícios é o vidro. Além de nos dar luz, calor e protecção, também é decisivo em termos acústicos.

É limpo, é durável, é facilmente substituível, pode ter vários comportamentos. Tem imensas vantagens, mesmo em termos plásticos, e pode ter variadíssimas cores, texturas e formas…
A ignorância na utilização do vidro é extremamente perigosa.

No entanto, existe ainda um grande desconhecimento sobre as potencialidades do vidro e o que ele poderá significar no futuro.

Ele pode ser quase tudo, pode ser volume ou espaço…limite opaco ou transparente, o que se quiser.

O vidro é o futuro.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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