Newsletter Nº 41
Outubro de 2005

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Arquitecto Pedro Lancastre Ferreira Pinto

“O vidro é uma libertação”.

“A AMBIÇÃO DO HOMEM SEMPRE FOI PROTEGER-SE NO SEU PRÓPRIO ESPAÇO SEM NELE SE ENCERRAR EM DIVÓRCIO COM O EXTERIOR. A JANELA ERA UM MAL MENOR… O VIDRO TORNA POSSÍVEL ESSA REAPROXIMAÇÃO: VIVER PROTEGIDO NO INTERIOR SEM NADA ALIENAR DA NATUREZA CIRCUNDANTE.”

“NÃO PERCEBO COMO EM PORTUGAL TÊM ESQUEMAS QUE SÃO USADOS COMO CASE STUDIES NOS EUA E AQUI NÃO LHES ATRIBUEM VALOR: A ARQUITECTURA POMBALINA, AS ESTRUTURAS DE MADEIRA POMBALINAS, SÃO ALI ESTUDADAS DE UMA FORMA APROFUNDADA…”

Ao longo de uma entrevista, plena de riqueza e de poesia, concedida à Notícias Saint-Gobain, da qual só podemos transcrever o que se segue, o arquitecto Pedro Ferreira Pinto abriu-nos, além das portas da sua casa feita de vidro, as portas do que lhe vai na alma ao longo da sua brilhante carreira de arquitecto:

Arqtº Pedro Lancastre Ferreira Pinto

Nasceu em 1939 no Porto e rumou a Lisboa com 3 meses de idade, mas foi aquela cidade e a sua Escola que modelaram a sua personalidade no mundo da arquitectura, ao escolher aí fazer o curso, na Faculdade da qual fala com o maior entusiasmo e saudade. Uma Escola com características bem diferentes das que tinha então a de Lisboa, mais politizada e menos imbuída do espírito académico que se vivia no campus académico do Porto. Os jardins da Faculdade eram o seu mundo, aí convivia e estudava. Compara-os aos campus universitários americanos. Entravam às oito da manhã e saíam às 8 da noite.
No fim do curso voltou a Lisboa, convidado como assistente, mas foi uma época em que a política dominava o mais elementar acto da vida – era o 25 de Abril.

Esteve no Brasil e as suas “casas do Brasil” são descritas pelas filhas que com ele trabalham, a arquitecta Sofia Horta e Costa e arquitecta de Interiores Madalena Ressano Garcia, como muito especiais e dotadas de grande irreverência.
Neste momento, a sua obra-prima e referência é uma casa toda feita em vidro, num terreno de 60 hectares, perto da Comporta, em que natureza e casa se conjugam e fundem numa só identidade. A este propósito afirma poeticamente: é como “plantar” uma planta exótica no meio de 60 hectares sem quebrar a harmonia da paisagem, sem ferir a sensibilidade da natureza e deixando-a intocada e virgem…

O seu conceito de arquitectura nunca dissocia ou separa o homem e a natureza, é sempre uma conjugação, uma harmonia entre o homem e o meio natural que o rodeia, pois natureza somos e para ela voltaremos, diríamos que pratica uma arquitectura ecológica.
A sua primeira experiência e que lhe serviu de modelo foi uma casa pequenina na Lapa, com um jardim minúsculo, em que a noção do tamanho desaparece assim como o fosso interior/exterior. É um mago na arte de fundir a natureza na arquitectura, sendo o vidro o seu aliado natural. Ousaria ainda apelidá-lo de “poeta da arquitectura” ou de “arquitecto-poeta”!

NOTÍCIAS SAINT-GOBAIN GLASS: Senhor Arquitecto, vivendo em Lisboa, porque escolheu a faculdade do Porto para fazer o seu curso? E porquê arquitectura?

FERREIRA PINTO: O Prof. Carlos Ramos arrancou com o novo curso de arquitectura no Porto. Ia ser uma coisa diferente, um conceito e abordagem diferentes em que a parte experimental e a escola como formação global se tornam importantes. Ali existiam alguns professores fantásticos, grandes profissionais, um Fernando Távora, um Rica, um Loureiro, um Octávio Filgueiras, este último o melhor de todos em termos de pedagogia, tendo deixado fortes marcas nos seus alunos. Era muito mais do que um arquitecto… marcou-me como personalidade, transmitiu-me que a arquitectura não é só um processo de desenho, é um processo que se consubstancia no desenho se esse desenho representar aquilo que as pessoas conseguem absorver culturalmente e exprimir no papel. A Escola do Porto era uma escola de representação das ideias, não apenas uma escola de discussão teórica dos assuntos…

SSG: Isso é a parte académica… e a parte humana, o homem, a atracção pela irreverência, pela cultura, a sua sensibilidade artística. Eu costumo dizer: os arquitectos são os escultores do vazio, porque um escultor molda o barro, tem algo de concreto e tangível, mas o arquitecto molda o espaço, espaço e luz. Mas o homem, o que foi que o atraiu? A escultura, a pintura? Porque não foi para medicina?

FP: Olhe, de repente fui parar à arquitectura… na altura havia muita dificuldade em escolher. No 5º ano tínhamos de escolher e claro que em mim havia esta inclinação… Chumbei no 7º ano a matemática e entrei para pintura na Faculdade e depois voltei para arquitectura.
Mas ainda quanto ao Porto, ali a possibilidade de rebeldia era também um pouco diferente do que se passava em Lisboa. Íamos da capital para uma cidade de província (naquela altura) e revoltávamo--nos contra a maneira de viver um pouco provinciana, mas depressa ganhávamos respeito pela maneira articulada, consistente, como aquelas pessoas viviam.
O conjunto de influências de uma Faculdade pode levar a criar raízes para que as pessoas desenvolvam e sedimentam os seus próprios interesses. Foi o que me aconteceu. E quanto à “irreverência”, que não é mais do que liberdade de espírito e predisposição para questionar o estabelecido, admito que ela é um traço da minha personalidade e da minha pratica profissional, mas também aí reconheço uma forte influência da Faculdade. Depois vim a integrar um gabinete que também me marcou bastante, que foi o do João Andersen, irmão da Sophia de Mello Breyner Andersen, professor de urbanismo, com quem trabalhei vários anos e que depois de acabado o curso e de regresso a Lisboa, me convidou a trabalhar num grupo em que participava o gabinete de arquitectos do Brasil que vinha fazer o plano de Tróia, lançar o conceito e a imagem do futuro empreendimento. De passagem, referir que o plano inicial era muito mais simples. Era uma tomada do espaço e do território bastante diferente daquela que veio depois a prevalecer.

SGG: Na imagem percebida, ao nível da identidade de arquitecto, qual é a sua característica distintiva. Por outras palavras, se tivesse de optar por um projecto, porque razão deveria escolher o que tem a sua assinatura?

FP: Parto sempre de um pressuposto, o de dar resposta a questões essenciais de vivência, de apropriação dum espaço: Como quer viver? O que lhe posso dar? Como posso contribuir para que apreenda o essencial do que procura concretizar, deixando de lado clichés e preconceitos? A partir das respostas a estas perguntas posso trabalhar.
Adoro música mas não sei ler uma pauta, da mesma forma que você não sabe ler folhas de desenho, mas sabe entender um volume proposto para um edifício, sabe ler um espaço, se eu lho apresentar e explicar de uma forma simples. A linguagem do arquitecto, em termos de desenho, de representação, é hieroglífica para o normal das pessoas… Por isso, respondo-lhe, as pessoas vêm ter comigo pela música e não pelas pautas. Não pelos desenhos mas sim pelo que eles representam, e que eu tento levar a apreender, muitas vezes por imagens faladas e analogias.
Se o espaço de algum modo caracteriza e envolve as pessoas, é esse espaço que também as cativa, para que depois da experiência feita, elas digam: é por aqui que eu quero continuar…
Em relação a esta casa toda em vidro, obra minha e das minhas filhas, queremos, primeiro, sentir que a casa é experimental, no sentido em que não é coincidente com as regras com que se fazem as coisas em Portugal.
Tivemos experiências boas e outras mais difíceis. Os revestimentos, rebocos, arranjos exteriores, paredes de alvenaria, betões, etc. levantaram problemas… A casa foi primeiro concebida toda em madeira. Era sublime, surgia no meio dos pinheiros, muito transparente e respirando o mesmo ar que os pinheiros tinham para crescerem. Foi projectada nesse sentido. Não conseguimos lá chegar, apesar de termos ficado com enorme respeito pela gente que trabalha as madeiras, por essa indústria, que podia ser uma indústria fantástica em Portugal. Vieram profissionais da Áustria, conceberam o esquema todo da casa, foi emocionante. E quem vinha montar a casa?! Operários portugueses que trabalham nas fábricas de madeira da Áustria e que construíam aqui a casa em cerca de um mês, mês e meio. Infelizmente os valores eram incomportáveis…
Depois fizemos uma pesquisa. E dos EUA veio alguém que comentou: “não percebo como em Portugal têm esquemas que são usados como case studies nos EUA e aqui não lhes atribuem valor”: a arquitectura pombalina, as estruturas de madeira dos edifícios pombalinos são ali estudadas de uma forma aprofundada. Por exemplo, constroem uma parede com os elementos todos de madeira e com os acabamentos que são usados nas casas pombalinas e montam-nos em cima duma carroça. Andam com a carroça de um lado para o outro para ver como resistem aos terramotos. Ver como uma parte suporta a outra, como é que uma estrutura suporta a outra, como é que provoca uma ruptura na outra. Isso é tudo estudado nos EUA, eu fiquei com um respeito enorme…

SGG: Senhor arquitecto, o vidro é seu amigo?

FP: Sim, claro! Tenho um livro, um estudo sobre a janela, do Corbusier, “De la fenêtre au pan de verre”, em que se fala da janela como buraco orientado, dirigido e protegido, que se podia transformar numa antevisão do que era a passagem do interior para o exterior, e de repente a janela passa a ser um pano de parede, só que parede de vidro. Também me ocorre uma entrevista do Arqtº Manuel Mateus sobre o valor da parede em si. E como é que o vazio entre a parede, que era a parte construída e o espaço que sobra entre a realidade e a irrealidade pode ser tomado pelo vidro. O vidro, hoje em dia, é como que uma parede que permite uma transposição da vista do interior para o exterior ou vice-versa, e ao mesmo tempo é ainda um plano de contenção, de protecção, mas já não uma barreira que corta a visão. Antigamente esse plano de protecção limitava-se a pequenas aberturas, hoje é interligação franca entre o interior e o exterior. Esta casa foi uma luta para se fazer, não por especiais dificuldades técnicas mas porque, saindo da rotina do que se faz por cá, assustava.
Tudo era difícil para agora afinal tudo parecer fácil. Por exemplo, fazer os vãos, vidros e caixilharia, com 2,70 m de altura.
Esta casa só tem quatro acabamentos: a laje com pavimento de cimento afagado, o estuque nas paredes interiores, argamassa Fradical no exterior e os grandes panos de vidro. Como complemento os “decks” de madeira de pinho tratado em toda a envolvente.

SGG: Para nós, povo mediterrânico, é importante viver na natureza… Como conciliar uma cultura que esconde o sol e vive do sol?

FP: Efectivamente a nossa cultura é escondermo-nos do sol… mas com as novas tecnologias podemos chegar a um compromisso. Não digo que seja como na Holanda ou nos países nórdicos, em que não há necessidade da mesma protecção em termos de insolação e não existe a mesma cultura do recato - lá nem sequer usam cortinas nas janelas…
Mas o compromisso impõe-se, porque a ambição do homem sempre foi proteger-se no seu próprio espaço sem nele se encerrar em divórcio com o exterior. A janela era um mal menor….Hoje em dia a tecnologia do vidro torna possível essa reaproximação: viver protegido no interior sem nada alienar da natureza circundante. No nosso caso esta opção pareceu-nos indiscutível: por meio dos enormes panos de vidro, a natureza, na imensa extensão dos pinhais envolventes, dos arrozais, da serra como pano de fundo, ser trazida para a intimidade do espaço construído.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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