Newsletter Nº 42
Novembro de 2005

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Entrevista com a Arquitecta Fátima Fernandes

“O vidro revolucionou a Arquitectura.”

“A PARTIR DO INÍCIO DO SÉCULO PASSADO, O VIDRO PASSOU A SER UM DOS MATERIAIS MAIS IMPORTANTES NA CONSTRUÇÃO DAS IDEIAS DOS ARQUITECTOS.”


“NÃO PERCEBO COMO EM PORTUGAL TÊM ESQUEMAS QUE “O VIDRO É A MATÉRIA MAIS PRESENTE NA CONSTRUÇÃO DA JAPONESA, KAZUYO SEJIMA, UMA DAS MELHORES ARQUITECTAS DE TODOS OS TEMPOS.”


No Porto, no seu atelier dominado pelo branco e pela luz, a arquitecta Fátima Fernandes concedeu à Notícias Saint-Gobain uma entrevista surpreendente em que a tecnologia foi tema preponderante, assim como o vidro ao serviço da arquitectura, da qual transcrevemos
o seguinte:

Arqtª Fátima Fernandes

A arquitecta Fátima Fernandes sempre soube que ia ser arquitecta. Tudo começou no liceu, com a paixão pelo desenho. Cerca dos 13, 14 anos, os professores de desenho aperceberam-se da sua enorme habilidade e incentivaram-lhe o gosto e o talento.

Nasceu em Trás-os-Montes, no bairro Moderno da Barragem de Bemposta, onde conviveu paredes-meias com a falta de todo o conforto que a civilização transporta, ou seja, electricidade, canalizações… quando ia à casa dos amigos mergulhava na idade média, pois viviam despojados de tudo, ganhando no entanto, o inesquecível contacto com os serões à volta da lareira, onde se contam histórias intemporais, magnificamente descritas nos livros de Miguel Torga.

Desde 1984 trabalha em conjunto com Michele Cannatà, desenvolvendo actividade profissional em Portugal e Itália e em 2000 funda a CANNATÀ & FERNANDES arquitectos Lda, onde é Sócia Gerente.

Hoje, na sua empresa sedeada no Porto, onde nos recebeu, tudo é design, luz, tecnologia e arte de saber transformar, e é assim que esta arquitecta que põe a tecnologia mais avançada ao seu serviço, descreve a arquitectura: a arte de transformar o espaço. Considera que a sua profissão é muito exigente porque é preciso estar sempre disponível até que a obra lhe saia das mãos, o que só acontece com a sua entrega ao cliente e a sua aceitação, então ela deixa de ser sua. Até esse momento é preciso uma entrega total, a que não se poupa!

Desde há 8 anos que, a convite da Exponor, são os responsáveis científicos dos eventos de arquitectura que se efectuam durante a CONCRETA e este ano a convite da AEP, são os comissários juntamente com Eduardo Souto de Moura, Nuno Grande e Jorge Figueira do evento “DES-CONTINUIDADE, arquitectura contemporânea norte de portugal”, que se realiza na cidade de São Paulo no Brasil de 7 a 13 de Novembro.

A Exposição e o Catálogo do projecto DESCONTINUIDADE centram-se na produção de diversas gerações de arquitectos portugueses que estabelecem uma relação de compromisso ou de referência com o Movimento Moderno europeu, difundido em Portugal sobretudo a partir da segunda metade do século XX. Neste sentido, o evento procura evidenciar a forma como essa relação se traduziu em diversos projectos urbanos e arquitectónicos construídos entre as décadas de 50 e 70 (visíveis em Cidade Moderna e Edifícios de Referência), mas também como a mesma foi sendo “re-assimilada” reflexivamente na produção arquitectónica contemporânea, uma vez disseminado o debate disciplinar em torno da pós-modernidade (em Descontinuidade). Por outro lado, os projectos expostos evidenciam a actual dispersão dessa prática contemporânea no Norte do país, território de urbanização, também ela, difusa e descontínua, no qual a Arquitectura Portuguesa vem contribuindo para o processo de modernização regional, embora em consonância com um tempo que é já o da competitividade global.

Em parceria com a Exponor desenvolvem projectos de investigação dos quais resultou o protótipo da Casa Inteligente realizado por 40 empresas portuguesas assim como os Módulos Auto-suficientes, matéria que iremos desenvolver ao longo desta entrevista.

NOTÍCIAS SAINT-GOBAIN GLASS: Senhora Arquitecta, esse gosto pela arquitectura que manifesta, veio-lhe donde? Porque escolheu arquitectura?

FÁTIMA FERNANDES: Porque é a profissão mais bela que existe! Eu gostava muito de desenhar, e os meus professores de desenho tinham frequentado a Escola Superior de Belas Artes do Porto. Quando encontravam algum aluno que demonstrava gosto pelo desenho, incentivavam-no e disseram-me imediatamente que o meu destino era a arquitectura… Era o desenho e a construção. Estudei sempre na Escola de Belas Artes do Porto. Acabei no ano em que o curso de Arquitectura transita para a Universidade e é criada a Faculdade de Arquitectura. Mas a minha formação efectua-se num ambiente onde todas as artes convivem no mesmo espaço didáctico. O desenho, para mim, era um instrumento de construção de ideias e de espaços.

SSG: A pintura retrata uma realidade, o arquitecto induz uma realidade…

FF: O arquitecto transforma a realidade existente, projecta uma nova realidade que altera a anterior. Ambos utilizam o desenho, mas de maneira diferente. A pintura é autónoma da encomenda e do utilizador, o pintor não responde a nenhuma função específica e não tem que ter necessariamente uma encomenda para executar a sua obra. O público, como utilizador da obra de arte, pode estar ausente do seu processo de criação. No processo de arquitectura há sempre muitos intervenientes: o arquitecto, o cliente, o construtor, os engenheiros. O arquitecto constrói as ideias de um cliente, o construtor constrói as ideias do arquitecto. Esta parceria só termina quando se concretiza a obra.
O arquitecto é o grande especialista da persuasão, interpreta o desejo do cliente e constrói-o, e o desenho é a comunicação entre os três intervenientes: arquitecto, cliente e construtor…

SGG: Então o papel do arquitecto é a concretização da ideia, a sua realização…

FF: Sim, depois de ter a ideia é preciso fazer o projecto, onde intervêm também as várias componentes e especialidade necessárias à realização da obra. O arquitecto coordena e insere no projecto um conjunto de informação cada vez mais complexa e especializada, que permite construir a obra que lhe é encomenda.

SGG: Há obras de arquitectura que são grandes obras de engenharia…

FF: A melhor arquitectura foi sempre produzida por grandes inventores que construíram espaços usando a arte e a técnica mais avançada.

SGG: O que a motiva mais, as grandes obras, ou as particulares?

FF: Precisamos sempre de um interlocutor, quer seja um privado ou um organismo público, é indiferente.

SGG: Mas a relação emocional será diferente…

FF: Sim… gosto de fazer obras grandes. Não tenho apetência pelo design de interiores, não me interessa fazer restauro… À partida gosto de obras grandes, de raiz. Mas também não temos de fazer sempre coisas novas. Há edifícios antigos que precisam de muito pouco… Uma das questões é que o arquitecto tem o dever de criar condições para que os edifícios sejam confortáveis para as pessoas viverem, dar a possibilidade para que o edifício continue a funcionar com comodidade. O arquitecto tem de estar sempre inspirado, tem de estar sempre a criar, tem de fazer constantemente o encadeamento de ideias…

SGG: Fale-nos da Casa Inteligente.

FF: Esse projecto e a sua construção teve um grande influência e veio alterar o processo e o método de trabalhar no nosso escritório. Tínhamos um mês para projectar e construir uma Casa que além do mais deveria englobar tecnologia de ponta. Questionámo-nos se era possível? Pensamos em usar o máximo de pré-fabricação e desenhámos o projecto a partir de elementos modulares. O projecto parte com a medida de um elemento construtivo que já existe no mercado, o murolux. As caixilharias e todos os elementos da construção passaram a ser múltiplos do murolux. A gestão do projecto foi toda exercida a partir de uma medida muito rigorosa. E num mês conseguimos de facto construir a Casa Inteligente e ainda com a complexidade de ser uma obra executada por 39 empresas!

SGG: Sei que costuma usar o vidro. O vidro está a revolucionar a arquitectura?

FF: O vidro já revolucionou a arquitectura há muito tempo. A partir do início do século passado passou a ser um dos materiais mais importantes na construção das ideias dos arquitectos. No início do século XX Paul Scheerbart, escritor e crítico literário que viveu entre 1863 e 1915, escreve o magnifico livro ARQUITECTURA DE VIDRO que dedica a Bruno Taut, onde celebra a passagem à nova “civilização do vidro”. É claro que este documento é um manifesto daquela que virá a ser a concreta importância do vidro na construção da arquitectura do nosso época.

SGG: A questão da habitabilidade… o vidro tem um papel crucial em induzir essa habitabilidade?

FF: Em Portugal temos um clima excepcional, muita luz, céu muito azul e sol. E, contudo, se entrarmos em muitas casa, verificamos que são tristes, sombrias, aparentemente muito pequenas… o arquitecto pode transformar um espaço pequeno num espaço enorme. A dimensão é uma percepção sensorial. É preciso realizar condições de habitabilidade não apenas físicas mas também e sobretudo psicológicas.
O arquitecto também tem que ser um ilusionista. Através do espaço e da luz, cria lugares com uma matriz física, que interagem com os sentidos. Cria uma realidade tangível através dos sentidos…

SGG: Voltando à casa inteligente, eu interpreto-a a si como uma arquitecta voltada para o futuro…

FF: O arquitecto usou sempre a expressão da mais alta tecnologia do seu período, do período em que vive…e os momentos de progresso das cidades ficaram sempre associados à aplicação da mais alta tecnologia ou da mais alta técnica aliada à construção. A alta tecnologia não implica terem de ser fios eléctricos à vista, interruptores ou ecrãs de plasma, implica sim a criação de espaços esteticamente confortáveis e muito fáceis de utilizar, deve servir para resolver problemas. Posso entrar no trabalho que qualquer um dos meus colaboradores está a desenvolver sem ter que necessariamente estar no Porto. Mas para isso tenho que ter um sistema implantado no edifício. Hoje abrimos uma torneira e podemos ter instantaneamente água quente e água fria. Já não vamos à nascente acarretar água para consumir em casa nem colocamos a água a aquecer ao lume. Vou no carro e falo com a minha família que está em casa! São técnicas que a arquitectura incorporou e vai continuar a incorporar na sua construção mas que não alteram os seus fundamentos.

SGG: Há cerca de 3 meses esteve com a arquitecta japonesa Kazuyo Sejima aqui no Porto. Os orientais valorizam muito as sombras… As sombras ao longo do dia, fazem parte da configuração do interior?

FF: A luz não vive sem a sombra, só há sombra porque há luz. A luz, na definição dos espaços, é muito importante, mas a sombra também. É o equilíbrio entre a luz e a ausência de luz que nos permite sentir a forma. É um excelente material de construção e os arquitectos Portugal trabalham muito bem ele (e é um material que para sorte nossa não custa dinheiro). A arquitecta Sejima visitou connosco algumas obras do arquitecto Siza Vieira e passado pouco tempo enviou os colaboradores mais próximos para visitarem as mesmas obras. Disse-nos que tinha ficado impressionada com os espaços que o Siza construía e com a maneira como a luz os modelava. Mas o vidro é a matéria mais presente na construção da japonesa, Kazuyo Sejima, uma das melhores arquitectas de todos os tempos.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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