Newsletter Nº 35
Março de 2005

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Entrevista com o Arqtº Miguel Nery

“O vidro é um bom amigo da arquitectura bioclimática, assim os projectistas o saibam aproveitar em benefício do controle energético dos edifícios”

“SE CONSEGUIRMOS TRABALHAR COM O NOSSO CLIMA, CONSEGUIREMOS EDIFÍCIOS COM CONSUMOS ENERGÉTICOS MUITO MENORES, SALVAGUARDANDO SIMULTANEAMENTE UM BOM CONFORTO AMBIENTAL E UMA REDUÇÃO DOS IMPACTOS SOBRE O AMBIENTE”

“A COLABORAÇÃO COM O ARQTº SIZA VIEIRA PERMITIU-ME ADQUIRIR UM NÍVEL DE EXIGÊNCIA, RIGOR E UMA EXPERIÊNCIA QUE ANTES NÃO IMAGINAVA POSSÍVEL. NESSE PROCESSO, APRENDI TAMBÉM O SENTIDO DAS PALAVRAS ‘COLABORAÇÃO E DIÁLOGO’, SEJA COM OS CLIENTES, ENGENHEIROS OU COM AQUELES QUE CONSTROEM OS NOSSOS PROJECTOS”

“A ARQUITECTURA BIOCLIMÁTICA ESTÁ NA ORDEM DO DIA, POIS NÃO SÓ É UMA RESPOSTA ÀS PREOCUPAÇÕES AMBIENTAIS, COMO TAMBÉM AOS EFEITOS NEGATIVOS INDUZIDOS PELA ACTUAL CRISE PETROLÍFERA “

Estas são algumas das ideias fortes da agradável e enriquecedora conversa que Notícias Saint-Gobain Glass teve o privilégio de estabelecer com o Arqtº Miguel Nery e da qual damos, seguidamente, nota mais circunstanciada:

Arqtº Miguel Nery

Miguel Nery licenciou-se em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, em 1992. De então para cá, Miguel Nery tem feito um percurso brilhante, com uma entrega e paixão totais pela sua profissão. Para além do seu mérito pessoal, concorre para isso o facto de ter vindo, ao longo destes anos, a colaborar com o Arqtº. Álvaro Siza Vieira, por quem nutre um especial apreço e reconhecimento. Isto sem desprimor por outros prestigiados Arquitectos com quem Miguel Nery teve o privilégio de trabalhar, como o Arqtº Fernando Varanda, Arqtº Vítor Figueiredo, Arqtº Fernando Salvador e Arqtº Maria Grácio Nunes.

A par desta colaboração permanente com o Arqtº Álvaro Siza Vieira, Miguel Nery tem o seu Atelier próprio, no qual se dedica a projectos de edificações do mais variado género, mas com particular incidência em habitações.

Contudo, a grande aposta actual de Miguel Nery é o Mestrado em Arquitectura Bioclimática, na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, e que irá por certo moldar a essência da sua actividade profissional.

NOTÍCIAS SAINT-GOBAIN GLASS: Objectivamente, como arquitecto, e em termos de posicionamento, quais são os seus traços distintivos? Por outras palavras, quais são as boas e principais razões pelas quais um cliente deva optar por si?

MIGUEL NERY: Começamos com uma pergunta difícil! (risos). Procurando responder à sua pergunta, parece-me que a colaboração com o Arqtº. Siza Vieira me permitiu adquirir um nível de exigência, rigor, e uma experiência, que antes não imaginava possíveis. Nesse processo aprendi também o sentido das palavras ‘colaboração e diálogo’, seja com os clientes, engenheiros, ou com aqueles que constroem os nossos projectos. Paralelamente, no meu escritório, ou associado com outros escritórios, venho desenvolvendo um percurso pessoal que se tem revelado extremamente enriquecedor e estimulante. Nesse processo, as questões ambientais e as suas relações com a arquitectura foram gradualmente assumindo um relevo especial, orientando actualmente o meu posicionamento face à profissão.

SGG: Reparo que as questões ambientais são, para si, determinantes. É assim?

MN: São questões que estão cada vez mais na ordem do dia e que procuro traduzir nos meus projectos. Se conseguirmos trabalhar com o nosso clima, conseguiremos edifícios com consumos energéticos muito menores, salvaguardando simultaneamente um bom conforto ambiental e uma redução dos impactos sobre o ambiente.

SGG: Quer então dizer que, em Portugal, é chegada a hora da “Bioclimática”?

MN: Gostaria de afirmar que sim. Penso, no entanto, que ainda há muito trabalho a fazer, nomeadamente nas escolas de Arquitectura. Por outro lado, em especial nos edifícios de serviços, continua a apostar-se em demasia na climatização mecânica, descurando muitas vezes o seu isolamento térmico da envolvente exterior, a massa térmica, ou o correcto sombreamento dos vãos envidraçados. Aliás, convirá lembrar que, felizmente, e a muito breve prazo, entrará em vigor o novo Regulamento das Características do Comportamento Térmico dos Edifícios (RCCTE) e que irá passar a ser obrigatória, em Portugal, a “Certificação Energética dos Edifícios“, à semelhança do que já se verifica nos electrodomésticos.

SGG: Podemos dizer que, por causa desses impactos ambientais e consumos energéticos associados e em particular na manutenção dos edifícios, vem aí uma reestruturação profunda na forma de pensar e fazer arquitectura em Portugal?

MN: Quero crer que sim. Vamos ter de evoluir, e rapidamente, no sentido de uma maior eficiência energética dos edifícios e da sua maior sustentabilidade, nomeadamente através de uma aposta forte nas energias e materiais renováveis. Se conseguirmos vencer estes desafios, estou certo de que estes factores irão ser estruturantes para a nossa Arquitectura.
Quanto mais não seja, é preciso não esquecer que Portugal não só subscreveu o Protocolo de Quioto, como também assinou acordos com a EU para a limitação de emissões de gases com efeito de estufa e, já em 2010, vamos pagar uma factura pesadíssima em multas (consumidores incluídos) se não cumprirmos os objectivos a que nos propusemos.

SGG: Pelo seu entusiasmo natural, fica a convicção de que a BIOCLIMÁTICA é a sua paixão mais actual… é assim?

MN: Sim. É com muito agrado que verifico que esta problemática já começa a ser dinamizada no nosso país e o exemplo do Mestrado em Bioclimática que estou a fazer é um excelente exemplo disso mesmo. Na realidade, já podemos ver novas edificações com soluções neste âmbito, ou seja, já se está a sair do estereótipo do edifício “solar passivo”, já se nota mais preocupações na escolha dos materiais, preocupações com a qualidade do ar nos edifícios,e a incorporação de sistemas de energias renováveis.
Mas como dizia atrás, temos de progredir bastante e sem hesitações, nesta matéria, sob pena de pagarmos custos muito elevados e desnecessários.

SGG: Pode-nos concretizar melhor quais os tipos de sistemas de energias renováveis a que se refere?

MN: Painéis solares, fotovoltaicos, energia eólica…entre outros.

SGG: E quanto aos materiais, o que se lhe oferece dizer sobre o vidro nos “Edifícios Bioclimáticos”?

MN: A ênfase que esta disciplina coloca na eficiência energética, na iluminação natural e no conforto dos ocupantes, torna a concepção dos envidraçados uma das “pedras de toque” de qualquer edifício bioclimático. O seu correcto dimensionamento, orientação, sombreamento, comportamento térmico, são factores fundamentais para a eficiência energética do edifício. Ao nível do conforto dos ocupantes, os níveis de iluminação natural, o controle do encadeamento ou ainda a exigência que todos os ocupantes tenham relação visual com o exterior, em especial na concepção de novos edifícios de escritórios, são alguns dos factores que são tidos em consideração na concepção de um edifício deste tipo.

SGG: Em sua opinião, acha que sabemos interpretar e capitalizar o nosso clima, no plano do conforto ao nível dos interiores das edificações, e muito concretamente no plano da luminosidade e climatização?

MN: No que respeita à iluminação natural, penso que temos alguns excelentes exemplos arquitectónicos, embora mais do ponto de vista estético do que do controlo solar.
Já ao nível do conforto térmico, só a partir dos anos 90, com RCCTE e o RSECE, estas questões começaram a ser equacionadas, tendendo a melhorar com a revisão destes regulamentos, que agora entra em vigor. Mas não tenhamos ilusões, os regulamentos não garantem melhor Arquitectura, pelo que me parece que estas questões devem ser aprofundadas nas escolas e pelos projectistas em geral. Outro dos riscos que corremos, se não aprofundarmos estas questões, é o da importação acrítica de modelos concebidos para outros climas, nomeadamente do norte da Europa, e que o mais provável é não se adequarem ao nosso clima, com especial ênfase para a concepção dos envidraçados, onde os riscos de sobreaquecimento podem comprometer a eficiência energética dos edifícios, se não mesmo aumentar as necessidades de arrefecimento nos meses mais quentes.

SGG: Há algum edifício no qual tenha intervido e no qual o conforto e o vidro sejam indissociáveis?

MN: Sim. Um bom exemplo disso é o caso dos “Terraços de Bragança” que o Arqtº Siza Vieira acabou de construir no quarteirão da R. do Alecrim e R. António Maria Cardoso, em Lisboa, e que eu tive a oportunidade de coordenar. Nesses edifícios, os envidraçados foram concebidos em função do conforto térmico, luminoso e, em especial, acústico, uma vez que nesta zona se verificam níveis de ruído muito elevados.

Neste contexto gostaria de salientar o apoio técnico prestado pela Saint-Gobain Glass, em especial pelo Sr. Carlos Bigode, no estudo das soluções adoptadas para os envidraçados, não só deste projecto, como de todos os desenvolvidos no nosso escritório.
Também em relação à Saint-Gobain Glass, é legítimo dizer que tem uma diversidade de soluções sintonizadas com a eficiência energética dos edifícios, pelo que caberá aos projectistas saberem aproveitá-las.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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