Newsletter Nº 37
Maio de 2005

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Entrevista com o Prof. Eng. LICÍNIO DE CARVALHO

“A térmica, a acústica e a iluminação natural têm de ser factores estruturantes da concepção arquitectónica moderna“

“O RUÍDO ESTÁ NA ORDEM DO DIA. CONTUDO, AINDA SE CONTINUAM A PLANEAR ZONAS HABITACIONAIS NOVAS AO LONGO DE VIAS DE TRÁFEGO INTENSO“

“O VIDRO TEM CONHECIDO UM PROGRESSO TECNOLÓGICO IMPRESSIONANTE“

Quem o afirma é o líder de opinião Prof. Eng. Licínio de Carvalho que, amavelmente, nos concedeu uma entrevista para esta edição de NOTÍCIAS SAINT–GOBAIN GLASS e da qual damos seguidamente conta:

 

Prof. Eng. Licínio de Carvalho

1972, cidade do Porto, Universidade de Engenharia. O então recém licenciado Engº Licínio de Carvalho inicia um percurso profissional brilhante, com particular enfoque na investigação. Hoje, já com um merecido estatuto de conceituado académico, encontramos o agora Professor Licínio de Carvalho na Universidade do Algarve – Escola Superior de Tecnologia e também no Ismap em Portimão, ligado à Universidade Lusófona, no qual dá aulas a alunos de Arquitectura.

Porém, para Licínio de Carvalho, o seu LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil, foi uma
das instituições que, efectivamente, mais o influenciou desde 1974, em termos de percurso profissional. Isto porque, e conforme o Professor faz questão de sublinhar, o LNEC foi, antes de mais, uma escola indelével em termos de rigor e maneiras de trabalhar na actividade profissional. De tal forma que ainda hoje fazem parte da sua formação básica.

Por outro lado, foi no LNEC que Licínio de Carvalho moldou e desenvolveu uma das suas grandes vocações: a de “Investigador“. Realce-se, aliás, “Investigador nato, por temperamento e por emoção“, e da qual se relevam, a título de exemplo, os trabalhos pioneiros, em Portugal, em termos de abordagem de engenharia, no domínio da “Térmica de Edifícios“ e, subsequentemente, no despertar para a problemática da “Iluminação Natural / Radiação Solar“, também ela ligada aos edifícios.
A “ Iluminação Natural “ é o tema que mais profundamente investigou e sobre o qual apresentou, em 1984, a sua tese no LNEC.

Cabe ainda sublinhar, dada a crescente acuidade que os temas têm vindo a suscitar, que a “Acústica“ e a problemática do “Ruído“ têm merecido, desde 1995, estudo aprofundado por parte de Licínio de Carvalho.

Por tudo isto, é pertinente afirmar que o Professor Licínio de Carvalho pertence a um universo restrito de profissionais, que detêm um conhecimento profundo e sistémico do comportamento dos edifícios no campo da Térmica, Acústica e Iluminação Natural, com particular incidência no que aos “Envidraçados“ diz respeito, ou melhor, às “Superfícies Transparentes“.

NOTÍCIAS SAINT-GOBAIN GLASS: Em que medida é que os seus saberes, nas áreas da Térmica, Acústica e Iluminação, influenciam e acrescentam valor à “Concepção Arquitectónica”? Ou melhor, em que medida é que os Arquitectos se devem socorrer desses mesmos saberes? Isto, sabendo nós que são áreas pouco desenvolvidas nos Cursos de Arquitectura e que têm inegáveis vantagens, como seja, por exemplo, o caso da economia de energia ou da habitabilidade e do conforto.

PROFESSOR LICÍNIO DE CARVALHO: Bem, neste campo da articulação entre a “Concepção Arquitectónica” e as problemáticas da “Térmica, Acústica e Iluminação” há dois aspectos cruciais que gostaria de sublinhar. Isto tanto como Professor de estudantes de arquitectura, como de consultor em projectos concretos.

Assim, o primeiro aspecto que se me afigura como muito importante é a necessidade de, logo na formação curricular do Arquitecto, passar a existir uma forte sensibilização para estes problemas.

O segundo aspecto é já ao nível da própria Concepção Arquitectónica, e aí penso que há duas únicas vias possíveis, para se poderem encontrar respostas adequadas:

“Ou bem que o Arquitecto tem formação suficiente nestas áreas (Térmica, Acústica e Iluminação) e consegue autonomamente encontrar as sínteses apropriadas, ou seja, os compromissos correctos em cada situação concreta, ou bem que a não tem, e aí deve procurar o trabalho de equipa, multidisciplinar.”

Diria mesmo que antes de se traçar o “Primeiro Risco”, deveria já haver um prévio trabalho de equipa nestas áreas. Isto porque na Concepção Inicial/Primeiros Riscos, muita coisa fica logo implicitamente condicionada em termos de Térmica, Acústica e Iluminação. E, quantas vezes, com efeitos induzidos, negativos e irreversíveis! Quantas vezes acontece, que só em fase adiantada do projecto é o consultor solicitado e aí já o importante está decidido. Muitas vezes pouco há a fazer, ou então implica custos acrescidos, apenas para minorar os efeitos indesejados!
Repare que definições iniciais do projecto, tais como, a orientação do edifício, a volumetria, a configuração geral do edifício, entre outras, carecem de ser filtradas pelas exigências e necessidades que a moderna “Concepção Arquitectónica” implica e reclama destas áreas de que estamos a falar, tornando assim os projectos mais económicos e eficazes.

SGG: Senhor Professor, sei que reputa de grande importância o que designa de “Projectos Especiais”, que são objecto de investigação ao nível europeu e nos quais teve oportunidade de participar. Será que nos pode falar sobre a sua experiência, neste âmbito?

LC: Os “Projectos Especiais” que refere e nos quais participei, como investigador, são projectos que pretendem, no campo das práticas, validar soluções, princípios ou ideias que funcionam e, subsequentemente, fazerem-se as respectivas pedagogias e criarem-se práticas das mesmas junto do mercado da arquitectura corrente.
Estes aspectos da pedagogia e das práticas é que constituem o grande desafio dos “Projectos Especiais”

Por exemplo, repare no campo da Bioclimática. Uma da soluções típicas da Bioclimática é a dos envidraçados a sul, sombreados por um elemento horizontal. Este elemento horizontal, enquanto técnica da arquitectura solar passiva, permite sombrear no Verão e deixar que o Sol entre no Inverno. Portanto, como se vê, esta solução é simples, prática e a arquitectura Bioclimática tem disso dado boa expressão.

Ora, não obstante isto, o que se verifica é que, mesmo assim, esta ideia não é assim tão aplicada na prática corrente, tanto quanto o deveria ser. Portanto, impõe-se divulgar ainda mais o recurso a este tipo de solução. No fundo, a natureza dos desafios que falava é esta… como exemplo, claro está.

SGG: Nesta áreas que são objecto central da sua actividade de investigador, uma delas e a mais emergente é o “Ruído/Acústica”. Será que nos pode falar um pouco sobre este tema?

LC: O Ruído é um tema da actualidade. Como causa próxima sobressai a motorização da sociedade. Há regulamentação nova e…é um tema que ainda não está a chegar verdadeiramente aos seus destinatários!
Por exemplo, a nova regulamentação fala, e muito bem, num aspecto que é no fundo o planeamento urbanístico. Ou seja, pretende-se fazer intervir esta componente “Ruído” ao nível do planeamento urbanístico.

Pela minha experiência profissional parece-me, todavia, que o “Ruído” não está a ser atendido como uma componente que impõe restrições ao nível do Planeamento urbanístico. Repare, por exemplo, que ainda se continuam a planear zonas habitacionais novas ao longo de vias de tráfego intenso!

Seja como for, o combate ao “Ruído” está na ordem do dia e será irreversível.

SGG: No que diz respeito às Novas Tecnologias, elas também estão, para si, na ordem do dia?

LC: Sem dúvida alguma. Sou um fã das novas tecnologias. Estou deslumbrado por elas.
Tanto assim é, que regressando aos edifícios e, particularmente, às suas envolventes, há aspectos que têm tido grande desenvolvimento. Realizar-se-á em breve, em Paris (1), um encontro sobre envolventes activas multifuncionais que podem revolucionar a concepção futura da envolvente dos edifícios.
Trata-se de apresentar e discutir novas tecnologias para a construção da envolvente com base em elementos pré-fabricados produzidos em fábrica e capazes de responder às exigências actuais ambientais, de conforto, económicas, estéticas. São elementos capazes de gerar electricidade a partir da luz solar, de ventilar com pré-aquecimento solar do ar no Inverno, de proteger da radiação solar excessiva no Verão, etc.
É um processo com muito interesse, mas que só avançará se encontrar a receptividade e a capacidade de avaliação adequada dos profissionais envolvidos na concepção.

SGG: Falando agora um pouco sobre o “Vidro”e, particularmente, na forma como ele se enquadra na sua área de intervenção profissional, será que nos pode dar a sua sensibilidade?

LC: Efectivamente, a tecnologia do vidro tem conhecido progressos impressionantes.
Por exemplo, ao nível do factor solar aparecem, hoje em dia, vidros com um factor solar inferior a 0,40 e sem coloração… os arquitectos são muito sensíveis à questão da coloração.
Outro exemplo do progresso tecnológico é ao nível dos coeficientes de transmissão térmica, em que já são correntes vidros com um coeficiente de 1,20 W/m2.0 C, e até menos, quando a regulamentação estabelece valores de referência de 1.40.

Para se ter uma ideia do que isso significa, compare-se com os máximos de referência da regulamentação em vigor que, para os envidraçados, são 5,8 e 4,2 e, para as partes opacas da envolvente, onde é mais fácil obter valores baixos, são, por exemplo, de 1,40 em Lisboa e no Algarve.

Também ao nível do isolamento sonoro têm havido progressos significativos, com soluções de índice de redução sonora RW superior a 40 dB.

Julgo que estes três exemplos atestam bem o nível de progresso tecnológico que o “Vidro” tem vindo a conhecer.

(1) – Jornadas no CSTB em 8 de Abril de 2005
“Vers des Envelopes Actives Mulctifuncionelles”.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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