Newsletter Nº 39
Julho de 2005

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Entrevista com Arquitecto Nadir Bonaccorso

“Podemos resumir a arquitectura em espaço e luz,
e o vidro pode ser a fronteira entre estes dois elementos.”

“O VIDRO É HOJE UM ALIADO NATURAL DA ECO-EFICIÊNCIA“

“DA COLHER À CIDADE É UM CONCEITO DE LE CORBUSIER, QUE PARTILHO”

Estas são algumas das ideias fortes que sobressaíram da agradável e enriquecedora conversa com Nadir Bonaccorso e que a seguir transcrevemos na íntegra:

 

Arqt°. Nadir Bonaccorso

Victor “Arquitectos Italianos em Portugal” é o nome de uma das exposições emergentes no panorama arquitectónico português dos últimos tempos.
Mais do que querer afirmar ou impor um estilo, esta exposição pretendeu ser uma homenagem à Arquitectura Portuguesa, por parte dos arquitectos italianos radicados em Portugal desde os anos 80 e na sequência da mobilidade induzida aos jovens universitários europeus, por programas comunitários.

Nadir Bonaccorso foi o Arquitecto que concebeu e implementou esta exposição. O seu elevado sentido estético e competência técnica, aliados ao seu grande humanismo, fazem dele um profissional com créditos firmados no seio da sua classe sócio-profissional, no nosso país. Para o exercício da sua profissão, Portugal atraíu-o, entre outros motivos, pela maneira original como ainda hoje e entre nós se cultiva a “Cultura do Projecto” e nomeadamente nos seus aspectos mais particulares, tais como a Maturidade, a Instintividade e a Paixão de Fazer Cultura.

Que melhor poderá significar Nadir Bonaccorso, que não esta pequena história anónima e desinteressada:

“Quando rebentou a guerra do Iraque e mediante a crueza e choque das imagens que os Media transmitiam, Nadir Bonaccorso mandou parar os trabalhos no seu atelier e de imediato desenvolveu, para doar, um projecto de Auto-construção de abrigos sustentáveis escavados no solo, passível de poder ser feito com ferramentas rudimentares e sem necessidade de conhecimentos técnicos específicos.”

NOTÍCIAS SAINT-GOBAIN GLASS: Ao me preparar para esta conversa consigo, tive a oportunidade de visitar o seu site. Se é verdade que ele é, também, um reflexo da sua própria maneira de ser e estar na vida, permiti-me deduzir que a matriz do seu posicionamento profissional assenta em três eixos, simultaneamente autónomos e complementares entre si. São eles a Arquitectura, o Design e o Teatro. É assim?

ARQTº NADIR BONACCORSO: Ora bem, digamos que elas são áreas que, como traço comum, envolvem uma “Manipulação do Espaço”. Manipulação essa que, em cada uma das áreas que referiu, implica uma singularidade muito peculiar.

Naturalmente que essa “Manipulação do Espaço” é sempre concebida a pensar no Ser Humano, nas suas sensações, na forma como vive a sua vida e que, por exemplo, no caso do design, é um bocado o retomar do conceito do arqtº completo e que Corbusier definia “Da Colher à Cidade”. Ele achava que um arqtº deveria de ser capaz de desenhar desde a coisa mais simples, como uma cadeira ou uma colher, ao conceito de uma cidade adaptada a uma nova sociedade.

Mas, retomando o essencial da sua pergunta, diria que sou fundamentalmente um arquitecto e que o design e o teatro são aspectos mais circunstanciais na minha carreira. Por exemplo, no caso do design, em que procuro resolver uma funcionalidade específica de outra maneira, desenhei algumas peças, exclusivamente para oferecer aos meus amigos no Natal, ou prendas de casamento. Foi o caso dos candelabros. No caso do teatro, também aconteceu quase casualmente, pois fui convidado para fazer uma série de cenografias. Achei a experiência fascinante e triste, ao mesmo tempo. Fascinante, porque é uma área que envolve tanta entrega e tanto esforço interpretativo e de concepção, pois a cenografia é linguagem não verbal do guião; triste porque é efémera na sua existência. É curioso que a cenografia envolve tanta gente e depois traduz-se num produto que pode ser só para o espectáculo de um dia, apenas um dia. É curioso, muito curioso!

Bom, mas seja como for, dir-lhe-ia que a Arquitectura, essa sim, é a minha actividade principal.

SGG: Então, como define Arquitectura?

NB: Eu diria, resumidamente, que Arquitectura é “Espaço e Luz”. É a materialização do espaço com a luz. São dois elementos inseparáveis e que estão na génese da concepção arquitectónica, seja ela qual for. Por outras palavras, criamos um espaço, ou seja, materializamo-lo, e a seguir damos-lhe a força nos pontos em que esse espaço precisa, através da incidência da luz, ou melhor, dos jogos de luz, das sombras que isso cria, dos cheios e dos vazios, se assim quiser.

SGG: Bem, pelas suas palavras, posso deduzir que um Arquitecto é escultor do vazio. É assim?

NB: Sim, sem dúvida, sem dúvida. Repare que já na antiguidade, o filósofo Lao Tsé dizia, a pretexto de retirar a importância da materialidade, "os vasos são feitos de barro, mas é o vazio interior que constitui a sua essência. Paredes com portas e janelas constituem uma casa, mas é o vazio delas que constitui a sua essência."

Ocorre-me também evocar uma grande referência minha, que é o saudoso escultor Basco Eduardo Chimida, que a propósito das escavações de uma pedreira, se preocupou sobre a forma como ela era esvaziada do seu conteúdo, por forma a que quando a exploração terminasse, ficasse um espaço na paisagem e não uma imagem esventrada, como sempre acontece.

SGG: Falando agora sobre as edificações, que materializam o seu percurso profissional, a que género de projectos tem dado mais ênfase?

NB: Não tenho nenhum enfoque em especial quanto ao tipo de projectos a que o meu atelier se dedica. Diria que, aqui, tentamos responder aos desafios arquitectónicos que nos são colocados, independentemente da sua natureza ou complexidade. Consolidamo-nos e progredimos pela diversidade dos nossos projectos, que vão da construção de uma moradia até, eventualmente, à urbanização de uma zona. Como atrás lhe disse, o produto do nosso trabalho é integralmente destinado ao “Ser Humano“. Em síntese, diria que, na maioria das vezes, estamos a falar de um dado edifício que, por um lado, dialoga com um território envolvente e, ao mesmo tempo, disponibiliza, em função da sua natureza, habitabilidade confortável para quem com ele interage ou o usufrui.

Por esta razão é que o nosso atelier trabalha com uma equipa multidisciplinar. Por exemplo, consultores em eco eficiência, museologia, entre outras, e conforme a natureza dos projectos que estiverem em causa, para além das especialidades comuns a todos os projectos.

Por isso, e como vê , o nosso atelier não tem um enfoque especial quanto ao tipo de projectos. Um dos últimos trabalhos que acabámos, vindo de um concurso que ganhámos – um Jardim de Infância no âmbito do CacémPolis – é um edifício Bioclimático, agora em construção.

SGG: No que diz respeito a materiais de construção, é indubitável que o vidro é um dos materiais eleitos. Qual é a sua opinião sobre o vidro na arquitectura moderna, ou se quiser, em que medida é que o vidro é um aliado nos seus projectos?

NB: Sem dúvida que o vidro é muito importante nos meus projectos. Falávamos, há pouco, em “Espaço e Luz”, ora naturalmente que aí o vidro tem um papel preponderante, na exacta medida em que é através dele que se regula a entrada da luz nos espaços que são materializados.

Diria que o vidro torna mais imaterial, virtual, melhor dizendo, a barreira entre o espaço e a luz, que são a génese da arquitectura. Naturalmente que isto não lhe retira a capacidade de, se quisermos, o vidro poder ser o material delimitativo de um espaço.

Para além disso, e dada a evolução tecnológica do vidro, pode-se dizer que ele hoje também possibilita boas soluções ao nível da Bioclimática, Climatização, Luminosidade e Acústica.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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