Newsletter Nº 29
Setembro de 2004

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Entrevista com o Engº José Joaquim Sales Grade

“Qualidade” é um caminho inevitável, quer queiramos ou
não. O mercado é implacável e não perdoa improvisos ou
insinuações.

A “Marcação CE” para os materiais de construção e nos quais o vidro se inclui, está configurada na norma comunitária nº 1279. Norma essa que entrará em vigor, em princípio, a partir de Março de 2005”.

Fabricantes e, muito em particular, os transformadores de vidro simples em vidro duplo serão os agentes de mercado mais directamente envolvidos na aplicação da “Marcação CE”.

“Marcação CE” mais não é do que a creditação legal da sistematização do processo produtivo, suportada pela análise e aprovação de um manual de normas e respectivas amostras de fabrico, bem como pela obrigatoriedade de afixação da sua simbologia nos produtos comercializados pelas empresa transformadoras de vidro duplo”.

Em síntese, estes são os principais conceitos que o Engº Sales Grade, assessor da Saint-Gobain, amavelmente nos transmitiu, na entrevista que a seguir se transcreve e que foi focalizada na problemática da Qualidade e muito em particular no projecto “Marcação CE” que agora chega, em termos de aplicabilidade obrigatória, aos materiais de construção e ao vidro em particular.

ENGº JOSÉ JOAQUIM SALES GRADE

Distinto licenciado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, José Joaquim Sales Grade é hoje um reputado auditor para a área da Qualidade.

A sua predisposição natural, desde menino, para as actividades psicomotoras, foi a génese para a descoberta da sua vocação académica para o curso de Engenharia Mecânica.

Para isso concorreu também a influência do convívio próximo e continuado do seu ambiente familiar e do qual se destaca o facto de seu pai ser Engenheiro Civil, e o seu Avô, empresário de electrónica, que foi quem pôs a funcionar e comercializou o primeiro rádio, em Portugal, cuja marca se denominava Simplex.

Porém, o grande despertar, fascínio e entrega total, foi quando descobriu a Qualidade, o que aconteceu já no exercício da sua profissão, na actual Saint-Gobain, mas que então era a Covina, também ela uma das precursoras, em Portugal, na implementação de metodologias ligadas à Qualidade, razão pela qual é detentora do Certificado de Qualidade nº 13. O entusiasmo pela Qualidade motivou Sales Grade a fazer uma pós-graduação na Universidade Nova de Lisboa, em engenharia da Qualidade. É um redobrado prazer que Sales Grade sente, quando evoca o seu primeiro trabalho na Qualidade e que foi o de passar para o papel as especificações todas sobre o vidro, as quais e até então estavam tão só e apenas na cabeça/memória de uma só pessoa, a do encarregado! Hoje isso seria impensável.

Posteriormente, Sales Grade fez também uma pós-graduação em Gestão Ambiental.

Actualmente, e já Reformado, Sales Grade praticamente só trabalha em Gestão Ambiental e apoia a sua empresa-mãe sempre que é solicitado.

Notícias Saint-Gobain Glass: “Qualidade” é indubitavelmente um dos parâmetros de excelência, da sua matriz profissional. Por isso, e melhor do que ninguém, diga-nos como é que, actualmente, se contextualiza o conceito “Qualidade”, no âmbito organizacional de uma empresa, por exemplo:

Engº Sales Grade: Ora bem… numa perspectiva evolutiva do conceito “Qualidade”, estou convicto e julgo que hoje em dia é também uma opinião consensual, de que, dizia eu, esse conceito é sinónimo de “Sistema de Gestão”. Note que hoje, quando se fala de Ambiente, estamos a falar de Gestão, quando falamos de Segurança, estamos a falar de Gestão, quando falamos de Qualidade, estamos a falar de Gestão…

O que acontece, isso sim, é que, ao nível do Management, muitos gestores ainda não interiorizaram, e muito menos passaram à prática, este novo, abrangente e multifacetado figurino dos modernos modelos de Gestão e nos quais a “Qualidade” é, obviamente, um dos factores críticos de sucesso.

SGG: Quando diz factores críticos de sucesso, concretamente a que se refere? Pode concretizar com um
exemplo?

Engº S. G.: Claro que sim. De uma forma simplista e só por comodidade de raciocínio, repare, por exemplo, no diagnóstico da competitividade de uma dada empresa. Neste caso, a competitividade sai claramente reforçada, se ela própria estiver referenciada e for emergente de um modelo de “Qualidade”, na medida em que, e genericamente, aporta valor acrescentado aos seguintes níveis:

• Contextualização do mercado em que a empresa actua, nomeadamente na aferição das necessidades e exigências da procura, bem como na caracterização da concorrência directa e indirecta.

• Parametrização da sua oferta, particularmente ao nível da diferenciação e singularidade do seu posicionamento competitivo (benefícios funcionais e psicológicos oferecidos, adequação do preço percebido e serviço agregado).

Tudo isto em cada uma das fases do seu ciclo comercial (pré-venda, venda e pós-venda).

• Redução de custos e subsequentemente maior rentabilidade (Eficácia nas subcontratações externas; produçãodisciplinada e redução crescente até ao “Zero Defeitos”, no que respeita a improdutividades internas directas e induzidas).

• Potenciação da I & D e sua melhoria contínua.

• Melhores níveis de desempenho e realização pessoal do tecido social directamente ligado à empresa, quer ele seja interno ou externo.

Portanto, e aflorando apenas estes aspectos positivos e embora que muito genéricos ligados à “Qualidade”, será curial aferir que a “Qualidade” é a chave do sucesso empresarial.

Devo aliás salientar que, e duma forma muito mais complexa e desenvolvida, há sectores de actividade que demonstram à saciedade as vantagens da “Qualidade”. Refiro-me por exemplo ao sector da Aeronáutica, Automóvel, Farmacêutica e muitos outros, incluindo a indústria do Vidro e do qual a Saint-Gobain Glass é disso um exemplo incontornável.

Deixe-me só contar-lhe um exemplo que me ocorreu agora e ligado a esta questão do “Zero Defeitos”.

SGG: Faça o favor. Esteja à sua inteira vontade.

Engº S. G.: Já há muitos anos atrás, ainda a actual Saint-Gobain em Portugal se chamava Covina, fomos solicitados a fornecer vidros para a Nissan em Espanha. Já nessa altura a Nissan era muito exigente e avançada, em todos os domínios. Portanto a Nissan tinha de nos auditar para se convencer de que seríamos capazes de a fornecer. Isso implicou que eu fosse à fábrica Nissan, em Barcelona.
Quando nos foram mostrar a fábrica, o seu Director quis logo começar a testar-nos e disse-nos: Não sei se sabem, mas vão ver uma fábrica de “Zero Defeitos”. Muito bem, dissemos nós. O Director quis confirmar se tínhamos noção do que isso era, ou se tínhamos respondido evasivamente, ao que, delicadamente, reinsistiu: Não sei se sabem o que isso é? Sim, dissemos nós, é uma fábrica que “Produz de acordo com as especificações pré-definidas e que têm de ser verificáveis no final da produção”. Ah, sim senhor , sim senhor, vejo que falamos a mesma linguagem, disse-nos o Director, ao encaminhar-nos para dentro da linha de produção. Naturalmente que isto indiciava a capacidade ganhadora da proposta da Covina, o que veio a acontecer, naturalmente.

Portanto “Qualidade” é um caminho inevitável, quer queiramos ou não. Ou seja, “Qualidade” não é seguramente um modismo que apenas permite uma mera certificação, a qual e por sua vez só serve como mero requisito formal para ir a concursos, ou simular a performance que se não tem, ou é apenas um símbolo de status.
O mercado é implacável e não perdoa improvisos ou insinuações. Cada vez é mais e mais exigente.

SGG: Sr. Engº Sales Grade, depois deste alargado preâmbulo, julgo que poderemos agora melhor abordar o tema central desta nossa conversa e que é a “Marcação CE”, no sector do fabrico e transformador do Vidro, como por exemplo o do vidro duplo.
E porque há leitores nossos mais e menos familiarizados com esta problemática, diga-nos então o que é a “Marcação CE”?

Engº S. G.: No fundo e aplicando, especificamente, o conceito ao sector de transformadores de vidro simples em vidro duplo, diria que é o rudimento dos rudimentos, para que essas empresas comecem a pensar e agir em termos de “Qualidade”.
Isto é, se assim quer, trata-se da implementação da primeira etapa do processo de “Qualidade”.
Na prática estamos a falar de uma memória descritiva, ou melhor, de um manual de normas, com especificações pré-definidas de todos os processos, procedimentos, materiais utilizados e mecanismos de controlo, de todo o ciclo produtivo da transformação de vidro simples em vidro duplo.
Tudo isto parametrizado de acordo com a Norma Comunitária Nº 1279, específica para este sector. Mas repare, por exemplo, nesse manual deverão estar especificadas as características dos materiais que são precisos para a caixa de ar, as especificações de lavagem, as especificações das arestas, as colagens…ou seja, rigorosamente tudo o que tem a ver com a produção.
Depois é feita uma amostra, do vidro transformado que deverá ser enviada para uma instituição credenciada pelo I.P.Q., a qual a analisa e ensaia e subsequentemente avaliza e autoriza a empresa subscritora da credenciação a utilizar a “Marcação CE” e nomeada e, obrigatoriamente, a colocar a sua simbologia identificadora, nos próprios vidros transformados por essa mesma empresa.

SGG: Essa norma comunitária nº 1279 entra em vigor quando?

Engº S. G.: A partir de Março de 2005. Eventualmente poderá sofrer uma moratória, por força do atraso dos respectivos anexos Ie II. Mas vale a pena advertir que o seu não cumprimento incorre em pena de prisão, por parte dos transformadores que a não cumpram. Melhor dizendo, para se estar no mercado tem de se ter a “Marcação CE”.

SGG: Esta “Marcação CE” já existe noutros sectores. Não é assim?

Engº S. G.: Sim, inicialmente foi o sector dos Brinquedos o primeiro a adoptá-la, depois os das máquinas, em que os electrodomésticos são disso bom exemplo.
Mais recentemente esta obrigatoriedade estende-se ao sector dos materiais de construção, através da tal Norma Comunitária Nº 1279 e na qual os transformadores de vidro duplo Climalit se incluem.

SGG: Qual é então a razão de ser desta Norma, ou “Marcação CE”. Concretamente que vantagens traz?

Engº S. G.: Normalizar e disciplinar o mercado em termos de aplicação de regras mínimas de “Qualidade” e tendo em vista a salvaguarda dos interesses dos utilizadores finais, sobretudo.

Portanto, “Marcação CE” é o mínimo dos mínimos legais, em termos de “Qualidade”. Depois a diferenciação competitiva poderá fazer-se ao nível da certificação de produto, por exemplo. Note, a “Marcação CE” só se faz uma vez. A Certificação de produto é ciclicamente auditada por entidades credenciadas também pelo I.P.Q. Neste caso para além da Simbologia da “Marcação CE” a empresa aporá nos seus produtos a simbologia da Certificação de Qualidade e que é um “Q”, por todos já conhecidos numa multiplicidade de produtos e Serviços.

SGG: Enquanto assessor da Saint-Gobain, qual tem sido a sua intervenção neste processo?

Engº S. G.: Temos, como de costume, antecipando-nos ao mercado, e como tal feito um périplo reflectivo, sensibilizador e de apoio técnico pelos nossos transformadores, bem como sensibilizando através de diversos canais de comunicação, em que esta Newsletter é um dos deles, tentado sensibilizar todos os outros sectores prescritores do vidro, tais como o dos Arquitectos, Engenheiros, Construtores e demais agentes e entidades institucionais na área da construção civil.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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