Newsletter Nº 26
Maio de 2004

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Entrevista com o Arqtº Diogo Burnay

“O vidro é determinante na capacidade de, simultaneamente, se poder materializar e imaterializar um determinado espaço habitável”

“Nos nossos projectos de arquitectura, uma das preocupações dominantes é a de construir um espaço habitável, que suscite nas pessoas um forte desejo de o apropriarem como seu e nele construírem um conjunto de memórias e de afectividades.”

“Um edifício não é uma máquina de habitar, mas sim uma máquina espacial que, quotidianamente, permita às pessoas habitarem-no, no seu mais profundo sentido e independentemente de se tratar de um edifício de trabalho, convívio, habitação, ou outra funcionalidade.”

“O vidro ajuda a configurar o espaço e os seus percursos. Isto por força da sua característica nata e que é a transparência, o que permite manipular a orientação e a intensidade da luminosidade, proporcionando assim emoções diferentes, ao longo do dia, conforme a transparência e o pronúncio da sombra.”

Estas afirmações são extractos da singular e fascinante conversa que o Arquitecto Diogo Burnay, gentilmente, se dignou conceder a Notícias SGG e que a seguir apresentamos mais desenvolvidamente.

ARQTº DIOGO BURNAY

Logo que licenciado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa, Diogo Burnay impelido pela sua inquietude interior de mais e melhor saber e fazer, logo rumou a Londres, onde fez o Mestrado em Arquitectura na Bartlett School of Architecture da University College London. Desde cedo, a paixão pela sua profissão ficou reforçada pela forte e grata influência que seu mestre, Professor Manuel Vicente, lhe incutiu. Ainda em Londres, cidade que adoptou como sua eleita, Diogo Burnay trabalhou num dos maiores escritórios de arquitectura do Reino Unido, a Building Design Partnership, entre 88 e 92. Nesse período teve a oportunidade de conhecer e conviver com as maiores referências mundiais, no mundo da arquitectura. Mas, indelével no seu percurso profissional é a influência, sempre presente e activa desde os bancos da faculdade, de sua mulher Cristina Veríssimo, também ela Arquitecta de profissão e com Mestrado tirado na Universidade de Harvard, nos E.U.A.

Não obstante a paixão por Londres, quis o destino que o percurso do casal passasse por Macau, o que o marcou profundamente, não só porque lá nasceram os seus dois filhos, mas porque se enraizou e absorveu o referencial cultural do Oriente e o seu reflexo na arquitectura local. Diogo Burnay deu aulas na Universidade de Hong Kong e leccionou também no College of Architecture and Landscape Architecture da Universidade de Minnesota, nos E.U.A., decorrente de um convite que lhe foi dirigido.

Actualmente e desde 1998, Diogo Burnay e Cristina Veríssimo têm o seu escritório em Lisboa, e cujo portfólio é focalizado, quer em clientes particulares, em especial no âmbito da habitação e desenho urbano, destacando-se aí um projecto de 300 fogos, quer em clientes públicos e dos quais sobressaem dois concursos ganhos, nomeadamente um Centro de Dia da C. M. Oeiras e o do teatro do Cartaxo, que está em obra e cuja conclusão será no início de 2005.

Notícias Saint-Gobain Glass: Como se particularizam os seus projectos arquitectónicos, face a um percurso profissional tão rico, multifacetado e exercido em três continentes, Europa, Ásia e América?

Arquitecto Diogo Burnay: Em boa verdade, esta multiplicidade de referências, tanto de formação como culturais, assimiladas pelos locais onde eu e minha mulher estudamos, vivemos e trabalhamos, granjearam-nos uma sensibilidade muito própria perante as questões com que nos defrontamos todos os dias, no nosso Atelier.

Diria que o nosso posicionamento decorre e reflecte a simbiose das vivências culturais e arquitectónicas, tão distintas entre si, que fomos adquirindo e que nos permitem dar um cunho muito próprio às nossas edificações, ou seja uma abordagem diferente a problemas comuns.

Por outras palavras... creio não ser difícil presenciar, nos nossos projectos, influências que advêm de uma exposição Europeia, Oriental ou Americana e que tanto nos marcou.

SGG: Será que nos pode dar um exemplo específico?

Arqtº D.B.: Quando digo exposição, refiro-me em concreto à criação de um espaço no qual nós estamos em diálogo não só com outras referências culturais e consequentemente com a singularidade do universo da arquitectura que lhe está adjacente.

Veja por exemplo o desenho labiríntico do imobiliário Chinês. Essa influência reflectimo-la num dos nossos projectos recentes, cujo benefício mais imediato e atractivo foi o de permitir um diálogo mais próximo com a natureza envolvente, mas muito em particular com o estabelecimento de um novo modelo de vizinhança, sem ser tão estático como é habitual e simultaneamente preservar a privacidade, tudo isto não obstante a proximidade das habitações.

SGG: Será que nos pode dar uma ideia das tónicas mais dominantes, num projecto do seu Atelier, em particular no que respeita à habitabilidade?

Arqtº D.B.: Para nós, quando edificamos, para além da dimensão plástica e escultórica, prevalece uma preocupação central. Refiro-me concretamente ao propósito firme de construir um espaço habitável, um espaço que permita que as pessoas o possam apropriar como seu e aí construírem as suas memórias e afectividades, ao habitarem-no, independentemente da natureza funcional do próprio edifício – habitação, escritório, lazer, entretenimento ou outra finalidade.

Outro tema que nos nossos projectos é factor de preocupação dominante é aquele que eu caracterizaria como “Moldura”, ou seja, a integração de uma característica dominante e de base a partir da qual se desenvolve a organização do espaço que estiver em causa. Ora essa característica tem, a nosso ver, de ser facilmente identificável, tanto pelas pessoas que habitam o edifício em causa como por aquelas que com ele interagem em maior ou menor grau. Em suma, trata-se do carisma do projecto e como tal o que lhe dá uma identidade única.

SGG: Para melhor o conhecer, permita-me que falemos agora, da sua carreira de Docente. É Docente de Projecto na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. E assim? O que o move em ensinar?

Arqtº D.B.: A minha paixão pelo ensino é mais o sentido de termos a possibilidade de contribuir para a formação arquitectónica, cultural e ética das pessoas... e é isso que me move. No fundo é integrar o ensino e a prática no melhor que essa sinergia possibilita.

Note que não sou um académico puro, pois não me dedico exclusivamente à investigação e crítica da Arquitectura, isto não obstante cada projecto ter um espaço próprio para uma certa experimentação e investigação no sentido de encontrar a sua essência, o seu potencial e consequentemente encontrarmos uma solução. Solução essa que, por força da minha matriz profissional, se centra, sempre, muito numa vontade em propor espaços que procuram um diálogo através de um conjunto de diálogos e semelhanças e não apenas por repetir coisas iguais àquelas que já conhecemos.

SGG: Introduzindo agora, o tema do Vidro, será que nos poderá dizer como o enquadra nos vossos projectos?

Arqtº D.B.: O vidro sempre me fascinou. Fascinou, particularmente por uma característica que lhe é inerente de raiz e que é a da transparência e luminosidade.

Quer isto dizer que a transparência ajuda a configurar o espaço e o modo como este é percorrido. Note que eu posso procurar desde a luminosidade total até à translucidez, o que permite analisar e sentir o espaço com emoções diferentes, conforme a transparência e o pronúncio da sombra e que muitas das vezes se traduz numa silhueta, mais ou menos ténue, entre o espaço a que estamos confinados e os elementos a que o integram.

Preocupamo-nos sempre em utilizar o vidro, como um elemento estruturante do diálogo entre o espaço exterior e interior.

Em suma, diria que o Vidro tem a capacidade de simultaneamente materializar e desmaterializar um determinado espaço.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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