Newsletter Nº 27
Junho de 2004

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Entrevista com o Arqtº Carlos Almeida Marques

“Um bom exemplo da performance tecnológica do vidro e nomeadamente ao nível de interiores, está bem patente no estúdio do telejornal da TVI, em que a redacção está separada do estúdio, por uma parede de vidro”

“Para além da dimensão física e estética de um projecto, prevalece a dimensão vivencial e social de quem vai usufruir do espaço concebido nesse projecto. Numa palavra, a arte de fazer Arquitectura deve contribuir para que as pessoas sejam mais felizes.”

“O Belo deita abaixo qualquer teoria. Ora o belo manifesta-se muitas vezes na habitabilidade dos espaços e não apenas na sua parte física.”

“Em todos os meus projectos tento que eles reflictam a Cultura Mediterrânica.”

“A luminosidade é um elemento estruturante, na concepção dos espaços.”

Do interessante e singular encontro que, amavelmente, o Arqtº Carlos Almeida Marques, concedeu a Notícias SGG, estes são alguns dos extractos do diálogo havido e que a seguir transcrevemos, mais desenvolvidamente.

ARQTº CARLOS ALMEIDA MARQUES

Licenciado em Arquitectura, em 1982, pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa, Carlos Almeida Marques prosseguiu a sua especialização académica, tendo iniciado o Doutoramento na Universidade de Columbia, em New York, encontrando-se actualmente a terminar o Mestrado em Planeamento Regional e Urbano, promovido pela reitoria da Universidade Técnica de Lisboa, englobando cinco Universidades.

Almeida Marques cedo conheceu a sua vocação e cedo optou por ela com convicção e entusiasmo. Ainda Estudante Universitário, Carlos Almeida Marques começou a fazer os seus primeiros projectos, para nunca mais parar. Recorda com apreço os professores que o ajudaram a moldar a sua vocação e de entre eles destaca com particular apreço o Arqtº Manuel Tainha. O Arqtº Victor Consiglieri, foi, igualmente, outro professor que Almeida Marques recorda com apreço e com o qual realizou, já depois do curso, trabalhos de investigação sobre teoria da arquitectura, o que não só lhe permitiu uma consolidação dos seus conhecimentos académicos, como também lhe propiciou uma experiência enriquecida.

O vasto e multifacetado acervo concebido e edificado pelo Arqtº Carlos Almeida Marques torna difícil seleccionar as suas obras mais emblemáticas, tendo em conta que cobrem as áreas do Planeamento e Desenho Urbano, Projectos de Arquitectura de Edifícios Públicos, Habitação Unifamiliar e Arquitectura Religiosa, Construções Hoteleiras e Turismo no Espaço Rural, Equipamento Desportivo, Equipamentos Escolares, bem como inúmeros projectos de Arranjo Paisagístico para o Ministério da Educação, e ainda participação em variados Concursos.

Notícias Saint-Gobain Glass: Se tivesse de escolher, apenas e tão só, uma palavra que melhor o definisse como Arquitecto, qual seria ela?

Arqtº Carlos Almeida Marques: Bem... espontaneamente, escolheria a palavra “Pessoa“. Na realidade, o que mais me move na forma de “fazer Arquitectura“, confunde-se muito com a “Pessoa“, enquanto destinatária e usufrutuária das edificações emergentes de qualquer dos meus projectos, incluindo os de urbanismo, que é outra das minhas valências profissionais.

Gostaria de sublinhar que tudo isto acontece, naturalmente, com muita paixão, inclusive com prejuízo do lazer e até das relações familiares e de amigos, pois para mim o estar na arquitectura é mais do que um modo de vida... diria mesmo que é uma filosofia de vida.

Isto porque fazer arquitectura é mais do que dar resposta, num projecto específico, a um determinado programa de forma e espaço, com funcionalidade e beleza. Ou seja, para além da dimensão física de um objecto arquitectónico, prevalece, como sua parte integrante, a dimensão social ou vivencial, focalizada na melhoria da qualidade de vida das pessoas, contribuindo para que elas sejam mais felizes, através da interiorização dos espaços concebidos e que, ao adoptá-los como seus, lhes aportem bem-estar e harmonia, consigo mesmos e com os outros.

SGG.: Pode-nos concretizar com alguns exemplos, esta sua forma de sentir e de estar que acabou de evocar?

Arqtº C.A.M.: Olhe, costumo dizer que a beleza de uma forma deita por terra qualquer teoria, pois o belo identifica-se por si próprio e não precisa de explicações complementares. Ora o belo manifesta-se muitas vezes, não só pela parte física da edificação, mas também pela sua componente vivencial.

Veja por exemplo o caso de uma igreja, em que a sua vivência tem um cariz marcadamente simbólico, porque o que está em causa é a comunicação com o transcendente, com o espiritual, tendo o seu ambiente requisitos específicos para além da própria forma. Requisitos esses que vão desde a configuração do espaço até à acústica e luminosidade, entre outros aspectos.

Noutro caso, o de uma biblioteca que ainda há pouco terminamos, é com agrado que vamos verificando que o modelo de habitabilidade induzido no projecto e subsequentemente na edificação, vai sendo descodificado e interiorizado por quem a utiliza.

Lógica idêntica se aplica a qualquer outro tipo de projectos, quer se tratem de Habitação, Escritórios, Entretenimento, Cultura, ou outros géneros de arquitectura que tive a oportunidade de projectar.

SGG: Em termos de posicionamento diferenciador, qual é a identidade carismática dos seus projectos?

Arqtº C.A.M.: Ora bem, para além dos aspectos práticos que atrás lhe falei, tento que os meus projectos reflictam a nossa Cultura Mediterrânica, actualizada, é certo, às exigências e necessidades actuais, evitando o mais possível as influências de uma arquitectura Globalizada.

SGG: O que é que mais particulariza a Cultura Mediterrânica?

Arqtº C.A.M.: Por exemplo, ao nível da luminosidade, a característica dominante é o contraste entre o claro e o escuro e a forma como a luz penetra, por vezes em pouca quantidade, mas intensamente no espaço interior. Outra característica da Cultura Mediterrânica é a estrutura maciça e encorpada, em pedra e outros materiais com que se constroem os edifícios.

Estes conceitos devem naturalmente compatibilizar-se com a evolução tecnológica dos processos construtivos e o conceito de modernidade da arquitectura.

SGG.: Passando ao vidro e considerando este contexto que nos acaba de descrever, em que medida é que o enquadra nos seus projectos?

Arqtº C.A.M.: Bom... antes de mais diria que, para mim, a luz é fundamental na concepção dos meus projectos. Isto porque a luminosidade é um elemento estruturante na concepção dos espaços, na medida em que tem uma autonomia própria, ao entrar num espaço e projectar-se dentro dele.

Ora, neste contexto, naturalmente que o vidro tem uma função crucial na regulação desta luminosidade pretendida, ou concebida para um dado espaço e sua habitabilidade, o que permite maior liberdade na concepção arquitectónica. Isto para além de outras características facilitadoras e que se prendem com questões ligadas à acústica, isolamento térmico, segurança, entre outras.

Diria que o vidro não faz a separação de espaços, mas sim a transferência de espaços, sem descaracterizar a função de cada um deles, mas antes potenciando-os, ou complementando-os, o que de outra maneira seria difícil de obter.

Um bom exemplo disto que estou a dizer está bem patente na aplicação do vidro ao nível de interiores, como é o caso do Estúdio de Informação da TVI, que tive a oportunidade de projectar. Se verificar, a redacção está separada do estúdio por uma parede de vidro, o que transmite uma imagem de dinamismo e fluidez, pois o espectador vê o sítio onde a notícia é feita, a redacção, e simultaneamente o estúdio, onde é divulgada. Graças a esta solução de transparência visual, as câmaras podem obter imagens a partir de qualquer ponto do espaço, potencializando assim o carácter cinético das transmissões.

Ora esta parede de vidro tem características muito peculiares, nomeadamente ao nível do isolamento acústico, vibrações e reflexos, o que implicou um exaustivo e complexo estudo específico.

Basta dizer que os oito vidros que compõem a fachada, com 110 metros quadrados, que separa a redacção do estúdio, têm dimensões enormes, de 5 metros por 2,25 metros, apesar da sua espessura ser apenas de 17 milímetros. Estes vidros, pesando cerca de 400 kg cada, estão suspensos no tecto com um mecanismo de regulação permanente.

SGG.: Quem diria! Estava longe de imaginar tal complexidade técnica, na elaboração desse projecto, do Estúdio de Informação da TVI. A sua resposta é bem sugestiva para uma interpretação mais crítica, em termos de descodificação desse espaço, numa próxima vez que o venhamos a visualizar. Não acha?

Arqtº C.A.M.: Sim... embora não seja fácil. Quanto mais não seja, porque a eleição do vidro como elemento estruturante na configuração e complementaridade entre os dois espaços – a redacção e o estúdio – se deve essencialmente ao facto de, inequivocamente, o vidro se afirmar não pela sua presença material e estética, mas sim pela singularidade das funções que lhe são inerentes, nomeadamente ao nível da acústica, transparência, vibrações e reflexos, como atrás referi.

Portanto, a interpretação, se assim quer, terá de ser feita, não por aquilo que se vê, mas sim por aquilo que não se vê.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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