Newsletter Nº 25
Abril de 2004

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Entrevista com o Professor Catedrático Engº Rui M. Almeida

“Um dia, as placas electrónicasserão superadas por circuitos ópticos integrados e aí entraremos na geração dos computadores ópticos”

“Acrescentar valor ao desenvolvimento científico e tecnológico sobre a manipulação da informação por via óptica, ou seja, modelar essa informação em raios de luz e transportá-la em vidro por circuitos ópticos integrados, é um dos exemplos dos vários projectos em curso, no âmbito da nossa função de investigação sobre tudo o que diga respeito ao VIDRO. Investigação essa que, aqui no Instituto Superior Técnico, é feita no Departamento de Engenharia de Materiais “DEMAT/ICEMS-IST“, e de cuja equipa de investigadores me cabe o privilégio de ser o responsável.”

“Uma vez que aqui no IST a investigação sobre o VIDRO está enquadrada no DEMAT/ICEMS-IST, procuramos, sempre que possível, que a investigação englobe todo o espectro deste material, com utilidade para a sua própria indústria, e por essa razão existem igualmente outros projectos, com incidência sobre o vidro maciço, para aplicações nos domínios da óptica e da opto-electrónica.”

“A ICG – International Commission on Glass é, se não o maior, pelo menos um dos maiores e mais reputados fóruns mundiais da comunidade científica e técnica do VIDRO. Em Portugal, a ICG é representada pela Ordem dos Engenheiros e também neste âmbito me cabe o privilégio de estabelecer, quer a interface com a própria ICG e outras instituições e entidades internacionais que lhe estejam agregadas, quer a sua dinamização e divulgação interna, em Portugal, junto da indústria e da comunidade científica ligada ao VIDRO.”

Estes são alguns dos excertos da amável conversa que o Professor Engº Rui M. Almeida concedeu a Notícias SGG e em que a nossa curiosidade em melhor o conhecer e saber o que está a ser feito, em Portugal, na investigação em VIDRO, nos foi suscitada na sequência da primeira visita que recentemente a ICG efectuou ao nosso país, para a reunião do seu comité de dinamização (“Steering Committee”):

PROFESSOR ENGº RUI M. ALMEIDA

Rui M. Almeida licenciou-se em Engª Química no IST, em 1975.
Mas, a sua inquietude permanente em mais saber e descobrir fortaleceu-lhe a sua faceta de investigador, o que o levou até Los Angeles, tendo aí concluído o Mestrado e depois o Doutoramento em Engenharia de Materiais, na Prof. R.M.A. Universidade da Califórnia, este último em 1980.

Aliado a este seu perfil bem determinado, muito concorreu a influência de seu Pai que também é Engenheiro, bem como o seu particular interesse pela química-física dos líquidos e estrutura de materiais.

Mas foi o seu mestre, Prof. John D. Mackenzie, quem mais o influenciou e o fez apaixonar-se pela investigação em VIDRO, dado que era um académico sempre na fronteira do conhecimento, figura incontornável e prestigiadíssima no mundo do vidro, incluindo o facto de ter sido o fundador e, durante mais de vinte anos, director do Journal of Non-Crystalline Solids.

Reputado cientista, de projecção internacional e com um acervo de mais de 130 trabalhos publicados, Rui M. Almeida é hoje Professor Catedrático no IST e investigador em Engenharia de Materiais.

É igualmente membro dos colégios de Engenharia Metalúrgica e de Materiais e de Engenharia Química da Ordem dos Engenheiros e representante de Portugal na International Commission on Glass-ICG, através da Ordem dos Engenheiros.

Notícias Saint-Gobain Glass: No que respeita à Investigação Científica sobre o VIDRO, será que nos pode dar uma perspectiva da acção e posicionamento do DEMAT-IST?

Professor Rui M. Almeida: Em termos gerais e por uma questão de melhor acessibilidade de compreensão por parte de alguns dos vossos leitores menos familiarizados com esta problemática, diria o seguinte:

No essencial, no Departamento de Engenharia de Materiais do Instituto Superior Técnico, temos forte vocação para fazer investigação.

Neste sentido, aqui no DEMAT-IST, e no que respeita ao VIDRO em particular, a investigação é feita por um grupo de sete investigadores, dos quais quatro doutorados, por vezes auxiliados por alunos da licenciatura em Engenharia de Materiais, cabendo-me o privilégio de ser o responsável por esta competente e dinâmica equipa.

Essa investigação incide sobre algumas das áreas em que a indústria do VIDRO actua e é feita no âmbito do ICEMS – Instituto de Ciência e Engenharia de Materiais e Superfícies.

A saber, fazemos investigação quer sobre vidro maciço, quer sobre películas finas de vidro, sendo que estas últimas têm uma série de aplicações, nomeadamente no campo opto-electrónico, como por exemplo em circuitos ópticos integrados, quer no domínio dos sensores. Também já fizemos, em anos recentes, investigação sobre fibras ópticas de vidros fluorados.

Em suma, diria que, de momento, o nosso grupo põe mais o seu ênfase no campo Óptico e Fotónico, em especial vidros e películas finas amorfas, para óptica integrada passiva e activa.

SGG: Será que me pode precisar melhor o conceito dos circuitos ópticos de que me fala?

Prof. R.M.A.: Sinteticamente, poderemos dizer que são circuitos ópticos integrados e que servem para manipular a informação por via óptica e, como tal, enquadrados no campo da Fotónica. Fotónica essa que, por sua vez, se contextualiza num espaço científico e técnico que incide na produção, reprocessamento e transmissão da informação, por meios ópticos.

Um exemplo destas aplicações, já universalmente conhecido e utilizado, é o das Fibras Ópticas, produzidas com base em vidro, mas sempre em evolução constante, ou objecto de investigação, se assim se quiser.

SGG: Será que me pode dar um exemplo comum que melhor ajude a fixar o conceito e mecânica de funcionamento da Fotónica... e das Fibras Ópticas?

Prof. R.M.A.: Sim. Note, por exemplo, que hoje em dia todos os modernos sistemas de telecomunicações (nomeadamente para os telefones e a internet) usam Fibras Ópticas. Ora bem, quando falamos ao telefone, toda a informação é gerada por processamento electrónico. Depois, esse sinal é transformado em sinal óptico e é então transportado pelas Fibras Ópticas. O mesmo é dizer, transportado à velocidade da luz. Como vê, aqui tem um processo fotónico, porque envolve fotões e os fotões são transmitidos através do vidro.

SGG: No campo do vidro plano, ele tem indelevelmente marcado a arquitectura moderna, fruto também da evolução tecnológica nesse segmento. Qual é o seu sentir sobre este facto?

Prof. R.M.A.: Concordo em absoluto. Por exemplo, na área dos revestimentos funcionais, o VIDRO tem conhecido uma evolução tecnológica notável, seja com funções como a auto-limpeza ou de repelir a água, mas tendo ainda um longo espaço a percorrer.

Nós próprios, no nosso grupo de investigação, trabalhamos em revestimentos funcionais, mas mais para aplicações ópticas, ou em sensores.

SGG: Pode-nos precisar melhor o significado de revestimentos funcionais?

Prof. R.M.A.: São revestimentos como filmes, ou películas, se quiser, que se aplicam sobre a superfície do vidro e que modificam as suas propriedades ópticas, térmicas, ou outras. Por exemplo, o Bioclean, que a SGG lançou recentemente, consiste num revestimento fotocatalizador, que vai limpando o vidro sempre que este se suja, através da acção da luz exterior sobre esse revestimento.

SGG: Será que nos pode falar um pouco sobre a ICG – International Commission on Glass?

Prof. R.M.A.: A ICG é, se não a maior, pelo menos uma das maiores e mais prestigiadas organizações mundiais na área do VIDRO e já conta com 70 anos de existência. Dela fazem parte 27 países e Portugal é um deles.

Essencialmente, a sua missão é ser um fórum que aglutine e dinamize, em termos de reflexão e intercâmbio de saberes, os elementos da comunidade internacional científica, técnica e industrial, ligada ao sector do VIDRO.

No caso de Portugal, esta organização permitir-nos-á, em primeiro lugar, projectar e dar visibilidade à nossa indústria vidreira e, em segundo lugar, fornecer-nos-á uma plataforma de interacção, diálogo e discussão com os nossos pares de outros países.

Kyoto será a cidade que acolherá, em Setembro, o congresso internacional da ICG 2004.

SGG: Relativamente ao futuro, que novidade com impacto poderemos considerar como expectável?

Prof. R.M.A.: Um dia, não muito longe, os computadores electrónicos serão substituídos por computadores ópticos e o vidro vai ser preponderante nesse avanço tecnológico, tal como já o é hoje no domínio dos sistemas de telecomunicações por fibra óptica.

Para qualquer informação contacte-nos: mkt.sggp@saint-gobain.com

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